Violência Política no Brasil: Estudo Inédito da USP Revela 760 Mortes em 20 Anos e Padrões Alarmantes
Pesquisa liderada por Angela Alonso, da USP e Cebrap, detalha o perfil das vítimas, a distribuição dos crimes e a natureza das execuções que atingem políticos e ativistas em todo o país, com maior incidência em governos de direita.
A violência política no Brasil deixou um rastro de sangue, lágrimas e sofrimento, totalizando 760 mortes em duas décadas. É o que revela um estudo inédito da Universidade de São Paulo (USP) e do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), liderado pela professora Angela Alonso, do Departamento de Sociologia da FFLCH e pesquisadora do Cebrap. O levantamento, que considerou o período desde o primeiro governo de esquerda pós-ditadura até a tentativa de golpe de 8 de janeiro, mapeou a violência cometida contra políticos profissionais – incluindo titulares, candidatos e ex-ocupantes de cargos – e ativistas, como membros de sindicatos e movimentos sociais.
Um Cenário de Mortes e Dificuldades na Coleta
Com uma média anual de 61,4 casos, ou 5,1 mortes por mês, a coleta de dados para o estudo enfrentou desafios significativos, especialmente pela ausência de processos judiciais em muitos casos. “Quando os corpos desaparecem, não há processos”, explica Angela Alonso. Diante disso, a pesquisa optou por um levantamento minucioso de casos divulgados na grande imprensa. Este é o primeiro estudo no Brasil a analisar simultaneamente tentativas de assassinatos, ameaças e assassinatos de ativistas e políticos profissionais em escala nacional, superando a limitação de pesquisas anteriores restritas a regiões ou apenas a políticos. Os dados mostram que políticos profissionais são a maioria das vítimas letais, representando 63,1% dos casos, enquanto ativistas respondem por cerca de 36%.
Diferenças Regionais e a Natureza dos Crimes
A violência política, embora distribuída por todo o país e presente em todos os estados, apresenta diferenças regionais marcantes. Roraima e Mato Grosso lideram as estatísticas, e cidades como Lajeado do Bugre (RS) e Santo Expedito (SP) se destacam como pontos fora da curva. Contrariando o senso comum, a violência está mais concentrada em áreas urbanas do que rurais. A maioria dos crimes, quase 90%, é planejada e executada com arma de fogo. “Não é um crime que se possa caracterizar imediatamente como vingança”, observa Alonso, descrevendo as execuções como tiros na cabeça ou no coração, à distância, por pessoas sem relação direta com a vítima, sugerindo a ação de pistoleiros de aluguel. Muitos desses crimes ocorrem à luz do dia, em locais públicos, e são mais comuns em pequenas cidades, ligadas ao circuito da política local, do que em grandes metrópoles.
Motivações Distintas e Variações Governamentais
O estudo aponta que as motivações para os assassinatos diferem conforme o perfil da vítima. Ativistas são frequentemente vitimados em conflitos de terra, enquanto políticos profissionais morrem por razões estritamente políticas, como disputas institucionais ou de candidaturas. “A gente tem populações diferentes que sofrem riscos diferentes”, afirma a pesquisadora. Outra conclusão relevante é a variação da violência política entre governos. A pesquisa identificou uma incidência significativamente maior de assassinatos durante governos de direita: 63,3% na gestão Temer e 51% no governo Bolsonaro, em contraste com 21,5% no primeiro governo Lula. “É uma diferença brutal entre os governos”, ressalta Alonso.
A Urgência de Políticas de Proteção
Diante desses achados, Angela Alonso enfatiza a necessidade de políticas públicas eficazes. Ela critica a ideia de que discursos de “mais segurança” por governos de direita protejam ativistas e políticos, dado o aumento expressivo de assassinatos nesses períodos. A pesquisadora sugere a criação de um observatório para monitorar sistematicamente esses casos, identificar áreas de maior risco e desenvolver políticas de proteção focalizadas. A prevenção de assassinatos políticos é possível, segundo ela, pois esses crimes seguem uma sequência lógica de ameaças, tentativas e, por fim, a consumação do ato fatal.
Fonte: jornal.usp.br
