Entre 1908 e 1941, o Brasil recebeu cerca de 190 mil japoneses, dos quais aproximadamente 10% eram naturais da província de Okinawa. Esses imigrantes, em busca de melhores condições de vida, trouxeram consigo não apenas suas esperanças, mas também a língua uchināguchi – idioma que o próprio Japão, após anexar o antigo Reino de Ryūkyū em 1879, tentava silenciar em um esforço de assimilação que durou até 1945. Décadas de estigmatização e marginalização cultural marcaram a trajetória desse povo, tanto em sua terra natal quanto no exterior.
Hoje, o uchināguchi é considerado severamente ameaçado de extinção pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). No entanto, no Brasil, a língua encontra um refúgio no âmbito familiar e afetivo, conforme investiga a pesquisadora Luísa Teruya em sua dissertação na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Seu estudo explora como eventos históricos moldaram a transição linguística para o japonês ou português entre os okinawanos e seus descendentes.
A pesquisa de Teruya, baseada na análise do discurso de documentos como o primeiro boletim da Associação Kyūyō (1928) e em entrevistas com imigrantes e descendentes, revela que os discursos institucionais e públicos contribuíram para a perda da fluência no uchināguchi em pelo menos uma geração. Contudo, a língua permaneceu fortemente ligada ao familiar e ao afetivo. “É sempre nesse lugar de ser a língua dos pais, dos avós, que [os entrevistados] entendiam e não conseguiam falar”, comenta Luísa Teruya. Para ela, essa persistência é uma questão coletiva: “As histórias foram passadas nessa língua. Os ensinamentos foram passados nela. Isso me marcou muito”.
A Imigração e a Batalha pela Língua
A chegada dos imigrantes japoneses ao Brasil ocorria sob contratos de trabalho em fazendas. Embora não seja possível confirmar a aplicação a todos, esperava-se que os okinawanos soubessem japonês. A aceitação desses imigrantes era cautelosa, muitas vezes justificada pela necessidade de mão de obra e pela intermitência da imigração europeia, preferida pela elite republicana para um suposto “melhoramento racial” do País.
As condições precárias nas fazendas, que levaram a muitas fugas, foram frequentemente atribuídas especificamente aos okinawanos, como explica Teruya: “Essas [fugas] eram justificadas como ‘não, veja bem, governo brasileiro: não são os japoneses assim, são os okinawanos’”. Essa estigmatização inicial se refletiu em restrições imigratórias. Em 1908, a porcentagem de okinawanos entre os imigrantes japoneses era de 40,6%, mas em 1913, caiu a zero, sendo aceitos apenas aqueles associados a okinawanos já estabelecidos no Brasil.
Em resposta a essas restrições e à necessidade de organização, foi fundada a Associação Kyūyō em 1926. O boletim inaugural da associação, de 1928, servia como um instrumento de comunicação e representação, contendo relatórios financeiros, debates comunitários e propagandas de empreendimentos okinawanos. Para que fossem vistos como “japoneses dignos” e tivessem as mesmas oportunidades, o boletim adotava um discurso que buscava alinhar os okinawanos aos valores japoneses. “Um artigo vai falar da busca de dinheiro, mas sem deixar de lado a moralidade. Não são textos autodepreciativos, mas nessa meta de ser um bom japonês. Mostrar-se digno, policiar-se mais do que os outros”, observa Teruya.
Uchināguchi: A Língua do Lar e da Memória
Esse conflito entre o desejo de pertencimento e a rejeição dos traços que os identificavam como naturais de Okinawa marcou a luta pela revogação das restrições. “Então, fora de casa, todo mundo fala japonês para parecer japonês; e tem quem não quer, que fala: ‘não, eu nem sei falar japonês’”, aponta a pesquisadora. Essa dualidade mostra a complexidade da identidade okinawana, que resistia à assimilação total.
Em 1941, com a entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial, a Associação Kyūyō foi forçada a fechar, e suas atividades já eram investigadas pelo governo Vargas. Após a derrota do Japão, Okinawa foi administrada militarmente pelos Estados Unidos até 1972. Nesse período, os EUA chegaram a recomendar o uso das línguas de Ryūkyū na educação para desvincular a identidade okinawana da japonesa. No entanto, a população local decidiu reconstituir a educação básica com o ensino do japonês comum, temendo que defender uma identidade própria pudesse prolongar a ocupação.
Apesar das pressões, o uchināguchi persistiu como um elo familiar. Teruya exemplifica com uma de suas entrevistadas: “Tem uma entrevistada que vem no pós-guerra e vive o período escolar lá. Então o japonês é realmente uma das primeiras línguas dela. Ela não sabe [fluentemente uchināguchi] por mais que em casa ela fale. Mas ela chega aqui e é a língua, por exemplo, da família do marido”. Essa conexão, mesmo sem fluência, é “algo muito forte e muito simbólico”, reforça a pesquisadora, que também é descendente de okinawanos.
A Academia como Guardiã da Diversidade Linguística
Para Leiko Matsubara Morales, orientadora da pesquisa e docente no Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Japonesa da FFLCH, a dissertação de Luísa Teruya integra um movimento de conscientização já iniciado na comunidade. “A universidade é um locus institucional relevante para a promoção das pesquisas, divulgação e, por conseguinte, para preservação das línguas, porque é nela que geramos e fortalecemos massa crítica sobre estudos daquelas não hegemônicas mas relevantes para a preservação da diversidade”, explica a professora.
O trabalho de Teruya lança luz sobre um aspecto pouco conhecido da diversidade do próprio japonês e sobre os diferentes povos que vieram do Japão para o Brasil. Matsubara Morales destaca a importância de fortalecer a pós-graduação em japonês e a interlocução com o Japão para promover ações como a criação de cursos universitários para a revitalização de línguas apagadas, como as de Okinawa e Ainu. Além disso, ela enfatiza a responsabilidade do governo brasileiro, que “poderia e deveria considerar o fortalecimento do japonês no contexto de imigrantes”.
Atualmente, essas línguas são estudadas como herança, estrangeiras ou adicionais, mas também como patrimônio linguístico nacional brasileiro, demandando o fortalecimento dos cursos de letras. A dissertação A Imigração Okinawana no Brasil Pré-Guerra (1908-1941): Língua, Discurso e Memória foi defendida em novembro de 2025 na FFLCH e ficará disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP após a conclusão da revisão.
Fonte: jornal.usp.br
