Professora da USP desvenda ‘Mulheres Subversivas’ em coletânea que reescreve a história do Brasil, revelando vozes femininas silenciadas do período colonial à ditadura militar

Professora da USP desvenda ‘Mulheres Subversivas’ em coletânea que reescreve a história do Brasil, revelando vozes femininas silenciadas do período colonial à ditadura militar

Obra da historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro subverte arquivos policiais e coloniais para expor o protagonismo feminino apagado por séculos de patriarcado, com apresentação especial na Biblioteca Nacional.

A história do Brasil, por séculos, foi escrita majoritariamente por homens, relegando o protagonismo feminino ao silêncio ou às margens. É contra esse “apagamento planejado” que se levanta a coletânea Mulheres Subversivas – Dentro e Fora da Ordem (Editora Companhia de História, Fotografia e Design), organizada pela historiadora e professora Maria Luiza Tucci Carneiro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A obra não é apenas um registro acadêmico; é um ato de reparação histórica que celebra os 15 anos do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (Leer).

Após seu lançamento oficial em agosto de 2025 na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, a coletânea terá uma apresentação especial nesta sexta-feira (13), a partir das 14 horas, no Auditório Machado de Assis da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, com transmissão online. Para Maria Luiza, o local é um retorno às origens de sua investigação. “É o lugar perfeito para se falar delas. Eu pesquisei muito na Biblioteca Nacional com as obras raras, não só sobre mulheres, mas sobre racismo, antissemitismo e escritores dos séculos 18 e 19”, afirma a historiadora. O evento contará com o comentário do professor Paulo Roberto Pereira, membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e especialista em Inquisição, reforçando o rigor científico da produção.

A Subversão Começa na Capa

A primeira ruptura da obra acontece já na capa, quebrando paradigmas editoriais. O nome da organizadora aparece embaralhado: “Tucci Luiza Carneiro Maria”, e o título se funde às vestimentas das personagens de Lasar Segall (Volume 1) e Portinari (Volume 2). A palavra “Dentro” está inserida na roupa das personagens, simbolizando tanto o aprisionamento quanto a ruptura. “É uma obra subversiva sobre mulheres que romperam com a ordem patriarcal estabelecida desde o período colonial e foram interpretadas como ‘desordeiras’ por uma sociedade machista”, explica a professora.

Durante 11 anos, uma equipe financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) explorou os arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Deops). A pesquisa buscou indícios de resistência onde o Estado via apenas crime. “Identificamos os caminhos percorridos por essas mulheres e como foram silenciadas por séculos. Utilizamos as próprias fontes policiais que as tratavam como ‘subversivas’ para devolver a elas o papel de protagonistas”, revela Maria Luiza. A investigação expôs o cinismo dos registros: mulheres intelectualmente vibrantes e militantes eram fichadas como detentoras de “prendas domésticas”, sintoma de uma historiografia “amordaçada” que valorizava apenas a ação masculina. “Precisamos fazer muito barulho, porque durante anos as mulheres foram apresentadas apenas como a ‘mulher ideal’, dedicada ao lar e ao marido”, enfatiza a historiadora.

Do Santo Ofício ao Cangaço: As Faces da Resistência

A coletânea atravessa séculos de resistência feminina, fundamentada em documentação inédita e no rigor acadêmico de especialistas como a professora Lina Gorenstein e o professor José Carlos Sebe Bom Meihy, da FFLCH.

O primeiro volume, intitulado “Fronteiras Morais”, aborda a trajetória de cristãs-novas perseguidas pelo Santo Ofício, as lutas de mulheres alforriadas pela guarda de seus filhos e a história das “polacas” — imigrantes judias que, embora estigmatizadas pela prostituição, estabeleceram importantes redes de auxílio mútuo no Rio de Janeiro e em São Paulo. Um dos destaques é o artigo de David Welder (Zevi), jornalista veterano, que em “O Testemunho de Zevi” traz um relato sensível sobre Dona Beca, coordenadora de uma associação de mulheres no Rio, dando voz a mulheres situadas fora da ordem moral vigente.

Já o segundo volume, “Pés de Guerra”, conecta a força de Maria Bonita no cangaço à vanguarda de Pagu e à escrita de Carolina Maria de Jesus, definida como o “avesso feminino de Macunaíma”. A obra documenta ainda a trajetória das “pérolas negras”, mulheres negras vigiadas pela ditadura militar, e de militantes como Isabel Cerruti, que defendia pautas como o amor livre e a emancipação financeira da classe operária.

O Legado da Subversão na Universidade

Para a pesquisadora, o papel da universidade é formar novos investigadores sensíveis a essas micro-histórias. “As mulheres empoderadas incomodam os homens que perdem espaços antes exclusivamente seus. O caminho está aberto e não pode ser interrompido por interesses políticos ou econômicos”, conclui Maria Luiza Tucci Carneiro. Ao final, Mulheres Subversivas prova que registrar o testemunho feminino não é apenas um trabalho acadêmico, mas uma ferramenta poderosa para a construção de um mundo com mais diálogo e liberdade.

Fonte: jornal.usp.br

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