A busca por compreensão do sagrado frequentemente se inicia dentro de fronteiras institucionais, mas para Josué Carlos Souza dos Santos, doutorando na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, essa jornada transcendeu os limites do protestantismo que o formou. Com o amadurecimento, veio o questionamento, e a percepção de que o espiritual habita uma multiplicidade de espaços: em igrejas e fora delas, em símbolos cristãos e textos hindus, em pessoas e experiências diversas.
Foi com essa mente aberta, mas também com certa cautela, que Josué chegou a um monastério. As expectativas de encontrar monges e freis sérios e restritos à própria doutrina logo foram desfeitas. A realidade se apresentou com abraços, sorrisos e café, em um ambiente de simplicidade acolhedora, onde a troca genuína prevalecia sobre formalismos.
Quebrando Estereótipos: Acolhimento e Simplicidade no Monastério
O monastério, em sua estrutura funcional, refletia essa receptividade. Cozinha e refeitório coletivos, dormitórios organizados e uma sala de oração carregada de símbolos — imagens de santos, velas, incenso — compunham o cenário. Ali, seminaristas e freis consagrados conviviam, compartilhando a vida em momentos de silêncio contemplativo e em outros de vozes, cantos e partilhas. A experiência, como aponta o poeta Antonio Machado, provou que “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar”, revelando-se um campo legítimo de produção de conhecimento ao focar nas práticas e no cotidiano da fé.
Fé no Cotidiano: Música, Diálogo e a Experiência como Conhecimento
Um dos pontos altos da visita foi o canto coletivo ao som de violão, enquanto outros freis conversavam sobre futebol e temas mundanos. Essa cena desfez a imagem de uma vida religiosa alheia ao mundo, mostrando que a espiritualidade se manifesta na atenção aos acontecimentos cotidianos, ressignificando-os. Para o pedagogo Jorge Larrosa, a experiência é aquilo que nos atravessa e nos transforma. A música preenchia o ambiente de alegria e comunhão, desmistificando qualquer rigidez. A espiritualidade se revelava nas trilhas do dia a dia, no acolhimento de estranhos, nas conversas e no café que aquecia corpo e alma.
O almoço, com comida caseira preparada pelos freis, foi outro momento de profunda conexão. Josué foi ouvido com curiosidade e atenção, e teve a oportunidade de praticar a “escuta sensível”, conceito de René Barbier, ao ouvir as histórias dos religiosos. Esses instantes sublinharam a dimensão essencial da fé vivida tanto no recolhimento quanto na partilha.
Votos e Ressignificações: O Encontro Transformador com a Vida Consagrada
A conversa com o amigo que o convidou para a visita foi particularmente marcante. Sua trajetória, de estudante de antropologia a frei consagrado, ilustrou as rupturas radicais e as ressignificações que acompanham a escolha pela vida religiosa. A memória do passado se reorganiza em torno de um novo propósito, sem ser apagada. Os votos de pobreza e castidade, vividos pela comunidade, apareceram não apenas como negações, mas como compromissos: a pobreza na simplicidade das vestes franciscanas e no modo de vida; a castidade como uma forma específica de doação ao outro, transformando energias e vontades em âmbito religioso. Não se trata de romantizar, mas de compreender como, no cotidiano de erros e acertos, a vida se transforma e reafirma possibilidades.
Uma Contracorrente de Sentido: Reafirmando a Religião em Tempos de Polarização
Ao final do dia, a viagem de volta ao aeroporto na van com os freis, sob olhares curiosos, consolidou a experiência. O que permaneceu foi a percepção de uma vida exigente, sim, mas permeada por alegria, companheirismo, risadas e sentidos. Uma vida inscrita no cotidiano, nos corpos marcados pelo sacrifício, nos afetos e nas práticas.
Essa vivência levou Josué a refletir sobre o tempo presente, onde a religião no Brasil tem se tornado um palco de polarizações e conflitos, esvaziando a dimensão espiritual em favor de discursos de poder e exclusão. Compreendendo-a como uma “experiência densa de significados”, no sentido proposto pelo antropólogo Clifford Geertz, Josué percebeu que a Fraternidade O Caminho, e o exemplo de seu amigo, mantêm-se fiéis ao carisma de vida simples, serviço aos vulneráveis e espiritualidade cotidiana. Essa comunidade reafirma a religião como espaço de sentido, cuidado e transformação, uma experiência contracorrente em um mundo que, muitas vezes, se desvia. Não negam os conflitos, mas respondem a eles com práticas sobre si – oração, meditação, leitura – e sobre o outro – empatia, altruísmo e doação.
Fonte: jornal.usp.br
