As plataformas digitais, presentes em nosso cotidiano, não são apenas ferramentas, mas complexos ecossistemas que moldam e são moldados por nossas práticas comportamentais e culturais. Essa é a perspectiva abordada no novo verbete “Plataformas Digitais” da Enciclopédia de Antropologia online da Universidade de São Paulo (USP), uma iniciativa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH).
Estruturadas por algoritmos e sistemas de recomendação (SR), essas plataformas visam facilitar ou induzir decisões, mediando grande parte da experiência social dos usuários. Para a antropologia digital, esses ambientes se tornam espaços onde atividades diárias são coletadas, organizadas e analisadas, um processo de “datificação” que levanta questões éticas e de privacidade cruciais.
A Mediação Algorítmica da Experiência Social
Os autores do verbete, Jader Jaime Costa do Lago e Francisco Carlos Paletta, trazem à luz discussões de importantes pensadores sobre esses ambientes interativos. O antropólogo estadunidense Nick Seaver, por exemplo, descreve os criadores de sistemas de recomendação como “atores bivalentes”, buscando um equilíbrio entre algoritmos e humanos, computação e gosto. Dados como navegação em sites, preferências musicais, geolocalização e hábitos de consumo são constantemente coletados por empresas de tecnologia para fins econômicos, que constroem estruturas para cativar o usuário e mantê-lo ativo o máximo de tempo possível.
Poder, Desigualdade e as ‘Armadilhas’ Digitais
Embora as plataformas contribuam para a construção de identidades e comunidades, elas também podem exacerbar desigualdades, limitando o acesso e a visibilidade de certos grupos sociais. A filósofa Donna Haraway já alertava que “técnica envolve, necessariamente, dominação”. O sociólogo brasileiro João Martins Ladeira complementa essa visão, explicando que os sistemas de recomendação operam por meio da observação contínua das ações do usuário, identificando padrões de repulsa e sedução que retornam ao usuário na forma de novas recomendações.
Nick Seaver faz uma analogia impactante, comparando os sistemas algorítmicos a “armadilhas”: artefatos sofisticados que funcionam psicologicamente, criando infraestruturas epistêmicas e técnicas tão abrangentes que se tornam difíceis de escapar, construindo mundos culturais complexos.
Plataformas como Espaços de Vida e Diversidade
Contrariando a ideia de homogeneização, o projeto de antropologia digital “Why we post?” (Por que postamos?), coordenado por Daniel Miller, demonstra como as plataformas digitais se tornaram espaços onde as pessoas vivem e expressam diferenças culturais. Na visão de Miller e sua equipe, “a plataforma é um artefato digital e cultural, uma ferramenta criada, desenvolvida e modificada pela ação humana”, refletindo a complexidade e as contradições dos usos globais dessas tecnologias.
A Enciclopédia de Antropologia da USP: Um Projeto Colaborativo
A Enciclopédia de Antropologia da USP é um instrumento didático e de pesquisa em constante construção, fruto da colaboração entre alunos e professores do Departamento de Antropologia da FFLCH. Iniciada em 2013, a partir de uma disciplina da professora Beatriz Perrone Moisés e levada adiante pela professora Fernanda Arêas Peixoto, a obra não busca uma ilusão de totalidade, mas um registro rigoroso e acessível do conhecimento antropológico. Com verbetes assinados e ordenados alfabeticamente, a enciclopédia atua como guia de orientação, oferecendo contato com formulações, obras e autores essenciais, além de bibliografia de apoio para aprofundamento.
Fonte: jornal.usp.br


