A contação de histórias, um hábito tão antigo quanto a humanidade, é um pilar fundamental para o desenvolvimento humano. Capaz de criar memórias coletivas, instigar a imaginação e a criatividade, ela transcende épocas e culturas, desde pinturas rupestres até as fábulas clássicas. Na infância, essa prática ganha ainda mais relevância, estimulando o senso crítico e a formação de lembranças que moldarão o indivíduo. Contudo, a proliferação precoce de novas tecnologias na vida das crianças tem colocado esse hábito milenar em xeque, gerando consequências preocupantes para a sociedade.
Telas e a Redução da Criatividade Infantil
Para Ísis Madi, doutoranda na Faculdade de Educação da USP, o impacto mais significativo das tecnologias na infância é a diminuição da capacidade de criar ideias. “Todo conflito, hoje, é substituído por uma tela. É como se fosse uma chupeta. As crianças não têm um tempo dedicado a se ouvir, a refletir, existe uma falta de resiliência para lidar com o tédio. As crianças estão com dificuldade de lidar com essas questões”, explica Madi. Em um mundo focado na produtividade, a contação de histórias oferece um espaço vital para o respiro e a introspecção.
Outro ponto crítico levantado pela pesquisadora é o compartilhamento de imagens prontas. Personagens e cenários pré-definidos em produções audiovisuais e na internet inibem o estímulo à criação de imagens mentais próprias, impedindo o pleno desenvolvimento dessa habilidade essencial para a imaginação.
A Narrativa Como Pilar da Essência Humana
Sabrina da Paixão, professora da Faculdade de Educação da USP, reforça que a narração é uma característica intrínseca que define os seres humanos. “Toda vez que a gente começa a falar de contação de histórias, a gente vai remontar às cavernas, às fogueiras, a um modo como a gente se desenvolve enquanto ser humano. É essencial que nós desenvolvamos isso enquanto comunidade, a gente desenvolva essa formação estritamente nossa”, afirma.
Cada história contada é absorvida de maneira única por cada indivíduo, influenciada por suas vivências, histórico e a própria fonte da narração. Ísis Madi destaca que a história carrega uma intenção distinta a cada vez que é compartilhada, gerando um valor simbólico particular em cada ouvinte. Para as crianças, essa interação é crucial, pois permite a experimentação de diferentes sentimentos, formas de vida e experiências, enriquecendo seu universo emocional e cognitivo.
Memórias Que Moldam o Futuro
Além de fomentar o senso crítico, o hábito de ouvir histórias cria lembranças duradouras que acompanharão os jovens pela vida. Sabrina da Paixão ilustra: “Quando a gente para, enquanto adulto, para repensar as histórias que nos formam, às vezes a gente não lembra a história com muita precisão, mas a gente lembra de quem a conta. A gente consegue pegar um fragmento de algo que nos marcou, como a voz de um avô, o cheiro daquele lugar ou a professora que contou a história”. Essas memórias afetivas são parte integrante da formação da identidade.
Bibliotecas: Fortalezas Contra a Desconexão Digital
Para mitigar os impactos da tecnologia e preservar o caráter humano e universal da narração, medidas são urgentes. A professora Sabrina da Paixão aponta a manutenção e expansão das bibliotecas escolares e outros espaços de leitura no País como uma atitude fundamental. “Precisamos reforçar o hábito de contação de histórias e leitura nos espaços escolares. Como as bibliotecas são usadas? Ela só é usada de modo a ir buscar uma informação para responder alguma coisa para uma avaliação e acabou? Temos que alterar isso”, ressalta.
A valorização desses espaços como centros de fomento à leitura e à imaginação é essencial para garantir que as futuras gerações continuem a se beneficiar da riqueza e profundidade que a contação de histórias oferece, protegendo sua capacidade inata de sonhar e criar em um mundo cada vez mais digital.
Fonte: jornal.usp.br


