O Brasil assiste a uma preocupante escalada da violência de gênero, com notícias diárias de feminicídios e agressões que atingem mulheres e meninas em todo o país. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam um aumento de 96,4% nos feminicídios em São Paulo entre 2021 e 2025. Mas, afinal, o que está acontecendo? Para a professora Heloisa Buarque de Almeida, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, embora a violência esteja, de fato, em alta, a maior visibilidade dos casos hoje se deve, em grande parte, à ‘gramática’ criada pelo ativismo feminista para nomear e denunciar esses crimes.
Antropóloga e pesquisadora do tema, Heloisa é autora do livro “Entre segredos, posts e notícias: A construção pública de categorias de violência sexual”, lançado em 2025. A obra, fruto de sua tese de livre docência na USP em 2023, traça o percurso do ativismo feminista ao dar nome a situações de importunação sexual e outras violências, expondo-as em redes sociais, na mídia e na academia.
Onda de Violência: Mais Leis, Mais Denúncias, Mais Desafios
Medir a extensão da violência contra a mulher é complexo. Enquanto os números de feminicídios, que cresceram 4,7% em 2025 em relação a 2024, são mais visíveis, os da violência doméstica, frequentemente ocorrendo no ambiente privado e atingindo crianças e adolescentes, são subnotificados. Heloisa Buarque de Almeida aponta uma correlação intrigante: “Uma coisa que a gente sabe do aumento de violência é que, quando a gente começa a ter leis novas, quando a gente começa a ter mais políticas protetivas, ou seja, quando as mulheres começam a ganhar mais direitos, o primeiro impacto é o aumento da violência.”
A docente exemplifica que, no nível pessoal, quando a mulher se empodera financeiramente, a violência do parceiro pode aumentar. Nos últimos 25 anos, o Brasil avançou com leis cruciais: a lei do assédio sexual (2001), a Lei Maria da Penha (2006), a mudança na categoria do crime de estupro (2009), a tipificação do feminicídio (2015) e a da importunação sexual (2018). No entanto, a efetividade dessas leis esbarra na necessidade de atualização de um Judiciário ainda machista e na construção de uma rede de proteção robusta, com assistência social, psicológica e médica. A professora também lamenta o desmonte de políticas públicas, como o serviço 180 da Central de Atendimento à Mulher, durante o governo anterior, que, segundo ela, contribui para a atual onda de violência.
Dando Nome aos Bois: A Importância das Categorias e Campanhas
A lista de crimes que chocam o noticiário é extensa e revoltante: desde o estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro, passando por feminicídios brutais como o de Cibelle Monteiro Alves e Tainara Souza Santos, até o assassinato de uma freira de 82 anos no Paraná. Nesses contextos, a mídia desempenha um papel crucial ao divulgar canais de ajuda e, principalmente, ao mostrar que atos antes naturalizados são agora categorizados como crimes.
Um exemplo emblemático, explorado no livro de Heloisa, é a importunação sexual, tipificada pela Lei nº 13.718/2018. Essa legislação surgiu na esteira de denúncias de violência sexual em transportes coletivos, que ganharam visibilidade e levaram a uma reavaliação do que era aceitável ou não no espaço público. O livro de Heloisa, ao abordar a violência sexual sob a perspectiva do agressor que não se reconhece como tal, demonstra como o ativismo feminista tem sido pedagógico, transformando o que já foi “paquera” em um sinal de risco e violência na experiência feminina.
Do “Fiu-Fiu” ao Assédio: A Construção de uma Gramática do Inaceitável
A reflexão da autora se ampara em três estudos de caso: a cobertura midiática do caso Roger Abdelmassih, médico condenado por estuprar pacientes; as campanhas de hashtag da década passada, como #ChegaDeFiuFiu e #MeuPrimeiroAssedio, que inundaram as redes sociais com relatos de constrangimento e violência; e a criação da Rede Não Cala USP, coletivo de professoras que acolhe denúncias de assédio moral e sexual na universidade, da qual Heloisa foi fundadora em 2015.
A professora destaca o protagonismo do feminismo mais jovem dos anos 2010, que, por meio de coletivos universitários e campanhas online, começou a problematizar o assédio e a violência. “Se você olhar as campanhas Chega de Fiu-Fiu, Meu Primeiro Assédio, Meu Professor Abusador, Meu Amigo Secreto, que são anteriores, inclusive, ao Me Too, elas não são uma coisa que vem dos Estados Unidos para o Brasil, elas já são uma coisa nossa mesmo”, afirma Heloisa. Essas campanhas foram fundamentais para enquadrar a antiga “cantada de rua” como assédio e expor como a violência de gênero é uma experiência precoce e como relações de poder abusivas se disfarçavam de “paquera” no ambiente acadêmico.
O Esforço Jornalístico e a Rede de Proteção Essencial
Para que esses discursos chegassem à imprensa convencional, o esforço de jornalistas feministas foi crucial. Heloisa relata a resistência inicial da mídia hegemônica, que via esses temas como “chatos” ou “desagradáveis”. “Eu mostro isso bastante com o caso do Think Olga, que era uma ONG feminista, formada basicamente por jornalistas mulheres. Elas estavam vivendo essa situação de tentar pautar a mídia hegemônica, e a mídia (respondia com) ‘não, esse tema é chato, esse tema é desagradável’,” conta a professora.
A luta por visibilidade e categorização dos crimes de gênero é contínua e essencial. Além das leis, a existência de uma rede de apoio e a conscientização social são fundamentais para combater a violência contra a mulher. A mídia, ao divulgar os canais de ajuda e reforçar a criminalização de atos antes tolerados, contribui significativamente para essa rede de proteção.
Violência contra a mulher: saiba onde procurar ajuda
- Na USP: Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) e Rede Não Cala USP.
- Em outras universidades: Muitas instituições estão implementando órgãos semelhantes, como a Unesp e a Unicamp (comissão de direitos humanos). Em universidades federais, procure escritórios de assuntos comunitários ou estudantis.
- Fora do ambiente universitário: Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher), procure Delegacias da Mulher, Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAMs) e serviços de saúde.
Fonte: jornal.usp.br


