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Da Visibilidade à Transformação: Por Que a Governança Científica Precisa de Políticas Estruturais para a Equidade de Gênero nas Universidades?

Da Visibilidade à Transformação: Por Que a Governança Científica Precisa de Políticas Estruturais para a Equidade de Gênero nas Universidades?

Ações simbólicas e premiações, embora importantes, não bastam para combater a sub-representação feminina nos cargos de poder e nas decisões acadêmicas. Experiências internacionais mostram o caminho para uma ciência mais justa e democrática.

A excelência feminina na ciência é uma realidade inegável, construída muitas vezes apesar das estruturas institucionais, e não graças a elas. Mulheres cientistas conciliam maternidade, cuidado familiar e outras dimensões da vida pessoal com as exigências acadêmicas, ensinando, orientando, publicando e formando gerações. No entanto, o reconhecimento de suas contribuições ainda se manifesta frequentemente por meio de homenagens de caráter celebratório, que, embora válidas, não abordam as raízes das desigualdades.

Os Limites do Reconhecimento Simbólico na Governança Científica

Refletir cientificamente sobre as experiências das cientistas no campo acadêmico é crucial para que o próprio sistema reconheça seus limites. Em universidades, a troca reiterada de posições de poder entre homens, ignorando a capacidade feminina, evidencia dinâmicas de assimetria que impedem a ciência de cumprir seu papel social de forma plena. A permanência justa das cientistas exige uma revisão das regras de governança científica, onde instâncias decisórias como colegiados, congregações e conselhos superiores permanecem majoritariamente masculinas.

Nesses contextos, a participação feminina tende a ser restrita, condicionada à assimilação de lógicas já estabelecidas. Mulheres predominam nos níveis iniciais da carreira, assumem maior responsabilidade na formação de recursos humanos, mas são menos reconhecidas na alocação de recursos, definição de agendas de pesquisa e ocupação de cargos de poder. Iniciativas como prêmios e editais destinados apenas a mulheres, embora representem avanços no reconhecimento de trajetórias historicamente invisibilizadas, não produzem necessariamente mudanças estruturais. Ao operar por mecanismos seletivos e competitivos, beneficiam apenas uma parcela, criando distinções internas em um grupo já vulnerabilizado e deslocando o problema da estrutura para o indivíduo.

Políticas Estruturais: O Caminho para a Equidade de Gênero

Experiências internacionais demonstram que a equidade de gênero na governança científica não pode ser apenas um gesto simbólico, mas um elemento de qualidade institucional. Avançar para uma governança mais equânime significa reconhecer que a diversidade de trajetórias, experiências e modos de pensar é essencial para a vitalidade intelectual da universidade e para a relevância social da ciência, alinhando-se aos princípios da pesquisa e inovação responsáveis (RRI).

A Universidade de Estocolmo, por exemplo, vai além do diagnóstico das assimetrias de gênero. Seus normativos institucionais explicitam a necessidade de criar condições efetivas para que o gênero sub-representado possa acessar, permanecer e progredir na carreira acadêmica. Isso inclui a identificação e correção contínua de desigualdades salariais, integradas sistematicamente às políticas de remuneração docente. O princípio orientador é que mulheres e homens desenvolvam suas atividades acadêmicas em condições equivalentes, com igualdade de oportunidades ao longo de todo o percurso profissional.

Casos de Sucesso: Oxford e a Dimensão Estruturante da Qualidade

A Universidade de Oxford oferece um exemplo elucidativo de como a equidade de gênero pode ser tratada como uma dimensão estruturante da qualidade institucional. A universidade publica relatórios anuais detalhados sobre a desigualdade salarial de gênero, reconhecendo explicitamente que o principal fator associado à diferença salarial é a sub-representação feminina nos cargos acadêmicos mais altos. Com base em análises sistemáticas, Oxford vinculou a redução dessas desigualdades a políticas concretas de recrutamento, progressão na carreira, transparência salarial e revisão contínua dos critérios de remuneração. O relatório de 2024 indica não apenas a redução da diferença salarial média, mas também a incorporação da análise de desigualdades como instrumento permanente de governança, com metas institucionais, mecanismos de monitoramento e responsabilização administrativa.

Esses modelos evidenciam que tratar gênero, remuneração e acesso ao poder acadêmico como questões estruturais, e não apenas simbólicas, é um componente central da gestão universitária orientada por evidências e compromisso público com a equidade e os princípios da pesquisa e inovação responsáveis. Somente assim, a ciência pode cumprir seu papel social de maneira mais plena, democrática e humanizadora.

Fonte: jornal.usp.br

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