Uma nova plataforma, batizada de Amazônia Digital, acaba de ser lançada para tornar acessíveis dados cruciais sobre as emissões e absorções de gases de efeito estufa (GEE) na Floresta Amazônica. Desenvolvida pelo Centro de Pesquisa para Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI) da Universidade de São Paulo (USP), a ferramenta de acesso público reúne informações de nove países que compõem a região amazônica, oferecendo análises integradas da dinâmica desses gases e fornecendo subsídios científicos para a formulação de políticas ambientais mais eficazes. O acesso à plataforma é feito mediante cadastro no site do projeto, com diferentes níveis de permissão conforme o perfil do usuário.
“É a primeira plataforma a integrar, de forma unificada, dados de satélites, torres de medição e outros sensores sobre o ciclo do carbono na floresta amazônica. Isso representa um avanço fundamental para a ciência e para a formulação de políticas públicas eficazes diante das mudanças climáticas”, afirma Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física (IF) da USP e coordenador do projeto.
Unificação de Dados Essenciais para a Ciência
A Amazônia Digital organiza dados essenciais para compreender o papel da Amazônia na dinâmica global de gases de efeito estufa – especialmente dióxido de carbono (CO₂) e metano (CH₄) – a partir de uma base de dados unificada que antes estava dispersa. Essa centralização permite que tarefas que antes demandavam dias de preparação e organização sejam concluídas em minutos, aumentando significativamente a produtividade dos pesquisadores.
O sistema também resolve disparidades em dados liberados por diferentes satélites, que variam em resolução, periodicidade e tecnologia. Entre as análises possíveis estão o impacto da degradação florestal nas emissões; os efeitos do El Niño e La Niña nas concentrações atmosféricas de GEE; o cálculo de emissões de metano em áreas alagadas; e os impactos da expansão agrícola e das mudanças nos regimes de chuva nos processos fotossintéticos da floresta.
Os dados iniciais abrangem o período entre 2003 e 2017, compilando informações obtidas de satélites, torres como a Torre Alta de Observação da Amazônia (ATTO), sensores de superfície e bancos de dados meteorológicos e ambientais. O próximo passo é a atualização do banco de dados até 2024, o que expandirá o escopo temporal das análises e fortalecerá o monitoramento contínuo da região.
A Força do Big Data Ambiental na Amazônia
A Amazônia Digital é um “data space”, uma estrutura digital voltada para a integração e processamento inteligente de grandes volumes de dados complexos. Neste caso, ela integra e organiza dados ambientais de diferentes origens e formatos – como satélites, sensores terrestres e torres de medição – em um ambiente unificado, com curadoria, rastreabilidade e interoperabilidade.
“Toda essa infraestrutura está hospedada na nuvem da Amazon Web Services (AWS), o que garante acesso remoto, escalabilidade e segurança. Isso possibilita análises robustas e pavimenta o caminho para o uso de inteligência artificial em buscas, inferências e tomadas de decisão. É uma aplicação concreta dos princípios de big data focada na complexidade da floresta amazônica”, explica José Reinaldo Silva, professor da Escola Politécnica (Poli) da USP e vice-coordenador do projeto.
Próximos Passos e o Futuro do Monitoramento
Entre os próximos desenvolvimentos planejados está a criação de um visualizador intuitivo projetado para usuários não especialistas. Como complemento a torres fixas e satélites, protótipos de drones capazes de coletar dados atmosféricos em áreas remotas da floresta foram desenvolvidos. A proposta é operar esses drones a partir de balsas na bacia amazônica, ampliando o acesso a regiões com cobertura terrestre limitada.
O sistema já está preparado para sincronizar com outros bancos de dados – e poderá, futuramente, ser integrado a plataformas internacionais como o Global Forest Watch. Relatórios periódicos com análises interpretativas também estão previstos, visando a formulação de políticas públicas baseadas em evidências.
“Nosso objetivo é fornecer uma infraestrutura robusta para que pesquisadores, gestores públicos e membros da sociedade civil possam acompanhar de perto o papel da floresta amazônica no balanço global de carbono”, afirma Silva. “Agora que temos uma estrutura tecnológica sólida, estamos buscando apoio para a continuidade e expansão do projeto.”
A plataforma, que em sua primeira fase recebeu financiamento da Shell Brasil e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), por meio da cláusula de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), envolve uma rede de instituições de pesquisa. Entre elas estão o Laboratório de Física Atmosférica da USP, D-Lab (Design Lab da Poli), C2D (Centro de Ciência de Dados da Poli), o Departamento de Engenharia Aeronáutica da Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Imazon, MapBiomas e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), sob a coordenação do RCGI da USP.
A plataforma pode ser acessada no site da Amazônia Digital.
Fonte: jornal.usp.br


