São Paulo, a metrópole em constante reconfiguração, enfrenta um dilema crucial: a preservação de sua rica memória histórico-arquitetônica. Longe de se restringir a grandes monumentos, o trabalho de órgãos como Iphan, Condephaat e Conpresp abrange uma vasta gama de bens, desde imóveis comerciais e vilas até elementos naturais e construções inusitadas, como um posto de gasolina na Aclimação ou o alambrado do Estádio do Juventus. No entanto, o ritmo acelerado das demolições e a pressão do mercado imobiliário colocam em xeque a capacidade da cidade de resguardar seu passado.
O Desafio da “Força da Grana” e a Visão Elitista do Patrimônio
A cidade, imortalizada pela “força da grana que ergue e destrói coisas belas”, vê a preservação como um dos seus maiores desafios. Segundo Simone Scifoni, professora de Geografia Urbana da USP, as instituições de preservação muitas vezes operam com um “olhar muito elitista”, priorizando a monumentalidade e valores estéticos formais. Essa abordagem negligencia bens culturais do cotidiano, como conjuntos de casinhas, pequenos comércios, cinemas de rua e fábricas das décadas de 1930 a 1960, que testemunham a história vivida da cidade e estão sendo perdidos em ritmo alarmante.
Demolições em Ascensão e a Pressão Imobiliária
Os números são alarmantes: em 2024, São Paulo registrou quase 3.500 alvarás de demolição e a projeção de 150 mil novos apartamentos. Essa dinâmica transforma bairros inteiros, substituindo edificações antigas por novos empreendimentos. Pedro Vieira, professor da FAUUSP, destaca a diferença entre o patrimônio “institucionalmente entendido” e aquilo que “deveria ser considerado patrimônio”. A derrubada de árvores no Bosque do Salesianos e a pressão sobre o Teatro de Container são exemplos da dificuldade em proteger a paisagem urbana. Mudanças nas leis de zoneamento e incentivos à construção de moradias sociais atraem incorporadoras, que frequentemente preferem adquirir terrenos para construir do zero, ignorando o potencial de reuso do existente, mesmo com a existência de 600 mil imóveis vazios na cidade.
Obstáculos para o que Já é Preservado
A complexidade não se restringe apenas ao tombamento de novos bens. Lidar com edificações e espaços já tombados apresenta seus próprios desafios. A necessidade de aprovações junto aos órgãos de preservação, embora essencial, pode burocratizar reformas e projetos, dificultando a manutenção e requalificação. Para pequenos proprietários, a carência de recursos financeiros e técnicos para cuidar adequadamente dos imóveis tombados é um obstáculo significativo, agravado pela falta de subsídios.
Caminhos para uma Preservação Mais Democrática e Eficaz
Diante desse cenário, especialistas apontam para a necessidade de soluções multifacetadas. Pedro Vieira defende apoio técnico e financeiro aos pequenos proprietários. Simone Scifoni, por sua vez, sublinha a importância de uma maior participação popular nos conselhos patrimoniais. “Quando a gente olha os conselhos de patrimônio, municipal e estadual, a gente não vê a representatividade da sociedade civil, dos moradores que estão mobilizados, das associações, dos coletivos”, afirma. A inclusão dessas vozes é fundamental para que a política de preservação seja verdadeiramente democrática e reflita os anseios de uma cidade que luta para conciliar seu desenvolvimento com a salvaguarda de sua identidade e história.
Fonte: jornal.usp.br


