A inovação é um pilar fundamental para a sobrevivência e o crescimento de qualquer organização no cenário atual. No entanto, para que os investimentos em inovação sejam verdadeiramente eficazes, é crucial ter uma tese bem definida. Segundo Marcelo Caldeira Pedroso, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP, essa tese deve fundamentar todas as decisões estratégicas, desde a identificação de desafios e oportunidades até a escolha de modelos de negócios e tecnologias a serem desenvolvidas.
Uma tese de inovação robusta, de acordo com o especialista, deve contemplar quatro elementos interligados: o propósito da inovação, os ativos estratégicos, o escopo de atuação e a visão da inovação. Juntos, esses componentes respondem a questões cruciais como ‘por que inovar?’, ‘quais são nossos diferenciais?’, ‘onde devemos inovar?’ e ‘qual futuro desejamos construir?’.
O Propósito: O ‘Porquê’ da Inovação
O propósito da inovação é o alicerce de toda a estratégia, definindo explicitamente o motivo pelo qual uma organização aloca recursos para inovar. Para startups, ele se manifesta na ambição dos fundadores, que considera motivações pessoais, equilíbrio financeiro, propensão ao risco e tolerância à frustração, além do tipo de negócio que pretendem perseguir (tradicional, startup, deep tech, lifestyle ou empreendedorismo de impacto). Já em empresas consolidadas, o propósito geralmente se concentra em três fatores-chave: crescimento de receita, maior eficiência operacional e a busca por resultados intangíveis, todos visando a adaptação às constantes mudanças de mercado, tecnologia, regulação, sociais, políticas e econômicas.
Ativos Estratégicos: A Base da Vantagem Competitiva
Os ativos estratégicos são os recursos e capacidades que conferem uma vantagem competitiva inigualável. São eles que respondem à pergunta: ‘quais são nossos diferenciais valiosos, raros, difíceis de imitar e não substituíveis?’. No contexto da inovação, esses ativos são as condições estruturantes para decisões como a entrada em novos mercados, o desenvolvimento de tecnologias disruptivas, a implementação de novos modelos de negócios e a capacidade de adaptação. Em empresas nascentes, os ativos estratégicos estão intrinsecamente ligados aos seus fundadores, podendo ser tecnológicos, mercadológicos, financeiros ou reputacionais, e determinam a base de atuação da startup, seja ela tecnológica ou mercadológica.
Escopo de Atuação: O ‘Onde’ Encontrar Oportunidades
O escopo de atuação aborda a questão ‘onde inovar?’, ou seja, a identificação e definição das oportunidades de mercado para a criação de valor e o crescimento. Para empresas estabelecidas, isso se traduz nos direcionadores de crescimento (growth upsides), como a expansão em segmentos atuais, a exploração de mercados adjacentes ou a inserção em novos territórios. Para startups, a delimitação do escopo é vital para focar na oportunidade de mercado mais promissora. Isso envolve um processo de três etapas: identificar o conjunto de oportunidades, avaliar sua atratividade e desenvolver uma estratégia focada, mantendo, ao mesmo tempo, opções para crescimento futuro ou para ajustes estratégicos, caso necessário.
Visão da Inovação: Desenhando o Futuro Desejado
A visão da inovação projeta o futuro que a organização almeja alcançar por meio de seus investimentos em inovação. Esse futuro pode ser segmentado em horizontes de curto (H1), médio (H2) e longo prazo (H3). Em empresas já consolidadas, esses horizontes podem estar associados a diferentes graus de inovação (incremental, radical, transformacional ou disruptiva) ou à estratégia de desenvolvimento tecnológico (melhorias em tecnologias existentes, desenvolvimento de tecnologias adjacentes ou criação de novas tecnologias). Para as startups, a visão da inovação pode estar ligada ao tempo esperado para o desenvolvimento da solução inicial e aos horizontes das opções de crescimento futuro, delineando a trajetória de sua evolução no mercado.
Em síntese, a tese de inovação é um mapa estratégico que integra o ‘porquê’ (propósito), o ‘onde’ (escopo) e o ‘quando’ (visão) da inovação, sempre alinhada aos ativos estratégicos da organização. Especialmente para empresas nascentes, esses ativos são a fundação que direciona as decisões e permite a flexibilidade necessária para ajustar a estratégia quando o mercado exige.
Fonte: jornal.usp.br


