A história de Frankenstein, contada por Fábio Frezatti, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, não é apenas um clássico da literatura, mas uma poderosa metáfora sobre a criação sem propósito. O monstro de Victor Frankenstein não era desejado nem esperado; não havia espaço para ele no mundo. Sua existência era fruto de um desejo individual, do “por que preciso disso?”, e não de uma necessidade coletiva, do “por que precisamos disso?”. Essa distinção, embora sutil na gramática, é abissal em suas consequências para a inovação e o desenvolvimento em qualquer esfera.
O mundo atual, mais do que respostas prontas, demanda perguntas adequadas. São elas que desencadeiam processos criativos capazes de gerar benefícios reais para a sociedade. Em um ambiente que clama por inovação – seja em novos conceitos, teorias, modelos, serviços ou produtos – identificar as perguntas mais relevantes é fundamental. E, nesse cenário, a indagação “por que precisamos disso?” surge como uma bússola estratégica e delimitadora.
A Armadilha do Ego na Inovação
Quando a pergunta vital “por que precisamos disso?” é negligenciada, o ego assume o controle, e a criação se torna um fim em si mesma. Victor, ao invés de buscar a utilidade coletiva, contentou-se com a satisfação pessoal de sua capacidade de criar. O resultado foi uma criatura que gerou medo e afastamento, exemplificando o perigo de inovações que nascem da possibilidade, e não da necessidade. Muitos produtos, serviços e até cursos se revelam difíceis de defender quando submetidos a essa pergunta, mostrando que a relevância nem sempre é perene e pode se tornar contraditória com o tempo.
Substituir uma pergunta estratégica por uma operacional é um erro comum com um custo elevado. Discutir “como minimizar custos do projeto?” ou “desenvolver uma solução de IA” antes de saber se o problema realmente existe ou é relevante, é o mesmo que construir uma ponte para lugar nenhum. Essa inversão de prioridades desalinha o desenvolvimento e pode gerar consequências negativas futuras, trocando o essencial pelo acessório em momentos indevidos.
O Legado da Formação e a Resistência à Mudança
O modo como somos formados academicamente e profissionalmente tem um impacto profundo na nossa capacidade de questionar. Aprendemos a explicar o mundo e sua composição, mas nem sempre a questionar sua necessidade ou relevância. Esse conhecimento arraigado, que não é neutro, molda nossas prioridades e a forma como enxergamos soluções. Alguém treinado em soluções mecânicas tenderá a aplicá-las mesmo onde uma abordagem química seria mais eficaz; um gestor com formação participativa resistirá a modelos excessivamente autoritários.
A frase “mas é isso que eu sempre estudei e aprendi!” é uma barreira frequente. O desafio é usar o capital intelectual não para dar continuidade a algo de utilidade duvidosa, mas para identificar problemas relevantes e direcionar esse mesmo capital para soluções ansiosamente desejadas. A consciência ontológica, de esperar algo da vida para si e para os outros, exige uma massa crítica epistemológica que permita propor o novo, a partir de diferentes conhecimentos, com efeitos coletivos no horizonte de um grupo.
Navegando na Complexidade e Velocidade do Mundo Atual
No ambiente público, decisões de alta relevância e longo prazo frequentemente esbarram na pergunta “por que precisamos disso?”, que, paradoxalmente, pode ser vista como um ataque pessoal. No entanto, é essa pergunta que força um exercício mental estratégico, caracterizando os beneficiários e priorizando os impactos de qualquer inovação, seja um conceito, teoria ou serviço. A sociedade avança rapidamente, e a inércia entre concepção e entrega é um problema real.
Em um ecossistema em constante mudança, a estabilidade é uma miragem. Se não há clareza sobre o porquê de algo, otimizá-lo ou aprimorá-lo se torna irrelevante. A demanda por respostas rápidas no mundo atual muitas vezes leva a aceitar perguntas não otimizadoras, apenas para evitar a impressão de inércia, quando uma perspectiva temporal mais orgânica seria necessária para entender e reagir. Grandes tendências globais – sustentabilidade, pobreza, saúde, IA – exigem respostas para problemas de curto, médio e longo prazo.
O conceito de concorrência também é crucial: se existe uma demanda, ela pode já estar sendo atendida por outro. Assim, a pergunta “a sociedade ainda precisa disso?” ganha várias dimensões – individual, institucional, regulatória – com olhares potencialmente diferentes. O indivíduo deve estar preparado para convencer ou se alinhar ao coletivo.
A Lição de Frankenstein para Pesquisadores e Líderes
O problema central da criação de Frankenstein foi a ausência de uma resposta para o “por que precisamos disso?”. Victor tinha suas respostas individuais, mas elas estavam desconectadas do coletivo e do regulatório. Inúmeras inovações, pesquisas e decisões surgem porque são possíveis, não porque são necessárias. O monstro era possível, mas não necessário para as pessoas, apenas para seu criador.
Victor nunca fez a pergunta crucial. Ele acreditava que a percepção “porque posso fazê-lo” era suficiente para justificar “por que preciso disso?”. No caso dele, a resposta atendia apenas ao ego. Uma mudança na pessoa gramatical de um único verbo – do “eu” para o “nós” – teria mudado tudo. Como pesquisadores e líderes, é vital vigiar os próprios passos, questionando continuamente: “Por que precisamos disso?”. Ignorar essa pergunta pode nos levar a criar nossos próprios Frankensteins: projetos grandiosos em possibilidade, mas vazios de propósito e relevância para o mundo.
Fonte: jornal.usp.br


