Uma pesquisa em andamento no Instituto de Geociências (IGc) da USP confirmou a medição exata do portal da Casa de Pedra, uma caverna com uma entrada monumental localizada em Iporanga, no Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira (Petar), Vale do Ribeira, em São Paulo. O levantamento, realizado com tecnologia Lidar aerotransportada, um sistema de sensoriamento remoto que utiliza varredura a laser emitido por drone, revelou que a entrada da caverna mede 197 metros de altura, podendo alcançar dimensões ainda maiores ao considerar sua seção superior.
Além da confirmação de sua grandiosidade, a pesquisa investiga o risco de ondas de cheia dentro da caverna. Dados preliminares indicam que eventos de chuva de apenas uma hora podem elevar o nível da água em mais de 2 metros na saída da caverna, um fator de risco significativo para atividades de exploração. Essas descobertas são cruciais para o planejamento de visitas e a gestão da Casa de Pedra, que se estende por aproximadamente 3 quilômetros de comprimento.
A Grandeza da Casa de Pedra Revelada
Marcada por imprecisão e controvérsia em suas medidas, a Casa de Pedra tem sido um patrimônio natural pouco reconhecido. Segundo Nicolás Strikis, professor do IGc da USP e um dos pesquisadores envolvidos, a caverna nunca foi listada no Guinness World Records e sua medição exata era desconhecida até agora. “É como se o estado de São Paulo possuísse algo comparável à Baía de Guanabara — um grande ativo não só turístico, mas ambiental, estético e natural — simplesmente ignorado”, afirmou Strikis ao Jornal da USP.
Com o novo levantamento, é possível afirmar que a Casa de Pedra possui a maior entrada de caverna do Brasil e, muito provavelmente, do mundo. “Com essas características de paisagem, é o maior portal medido no mundo até o momento”, enfatiza Strikis. A caverna é descrita como um local de beleza singular, com densa Floresta Ombrófila Atlântica e um rio que desaparece sob a montanha em um fenômeno conhecido como sumidouro.
O Perigo das Ondas de Cheia: Segurança em Foco
A Casa de Pedra está fechada para visitação desde 2003, quando um grupo de turistas e um guia foram atingidos por uma tromba d’água, resultando na morte de um turista e do guia. Atualmente, o acesso é restrito a pesquisadores autorizados e membros da Defesa Civil. A pesquisa de mestrado de Vanessa Faria Bohrer, orientada por Strikis, foca na medição da descarga da nascente do rio que atravessa a caverna e no monitoramento das ondas de cheia.
“Existe um plano de manejo espeleológico para essa caverna desde 2010, mas ainda faltava o monitoramento hidrológico para que os órgãos do parque pudessem avaliar uma possível reabertura”, explica Vanessa. Os dados em processamento indicam que chuvas de 60 milímetros por hora (mm/h) causaram um aumento de 2,17 metros no nível da água no início do ano passado, e 50 mm/h resultaram em 1,90 metro. Mesmo chuvas menos intensas, de 10 mm/h, foram suficientes para elevar o rio em 1 metro na área de ressurgência.
Vanessa destaca que o intervalo de tempo entre o pico da chuva e o pico do nível da água foi de aproximadamente 1,5 hora, o que, embora rápido, oferece uma janela para evacuação. A análise desses dados é crucial para determinar o tempo médio de elevação e recessão da água sob diferentes intensidades de chuva.
Tecnologia e Parcerias para a Gestão do Patrimônio
O mapeamento 3D da entrada da Casa de Pedra surgiu durante a pesquisa de mestrado de Vanessa Bohrer no IGc da USP. O trabalho de campo é exigente, com coletas a cada dois meses e requerendo planejamento extensivo devido ao risco iminente de inundações. A equipe conta com o apoio de hidrólogos do Instituto de Pesquisas Ambientais (IPA) e membros da Defesa Civil de Iporanga.
A pesquisa, que gerou um “gêmeo digital” — um modelo virtual que preserva as características métricas da nuvem de milhões de pontos coletados pelo Lidar — é resultado de uma parceria entre a USP, a Fundação Florestal, a Gestão Engenharia (patrocinadora do projeto) e o espeleólogo independente Thiago Ferreira Lima. Além de gerar resultados científicos inéditos, o estudo visa subsidiar a gestão de políticas públicas na área.
Um Futuro para o Gigante Subterrâneo
Embora exista a possibilidade de reabertura da caverna para visitação, os pesquisadores alertam que se trata de um ambiente altamente desafiador, que exige vasta experiência em ambientes subterrâneos. “É como se você andasse por ruínas desabadas, com o rio correndo e vários trechos sem áreas de escape. É técnico. Não é um turismo convencional. Eu não indicaria de forma casual”, conclui Strikis.
A compreensão da morfologia da caverna através do modelo 3D permite visualizar o portal em sua totalidade, algo difícil de obter com imagens convencionais. O grupo de pesquisa também está desenvolvendo um modelo físico em escala que será entregue à comunidade local, reforçando o senso de pertencimento e valorização deste importante patrimônio natural brasileiro.
Fonte: jornal.usp.br


