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Shen Ribeiro Traz para a USP o Shakuhachi, a Flauta Ancestral Japonesa que Encantou Imperadores e se Tornou Filosofia de Vida

Entre os corredores e jardins do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, ressoa um som que transcende o tempo e as fronteiras geográficas: o do shakuhachi, a milenar flauta tradicional japonesa. Quem trouxe essa sonoridade grave e profunda, que materializa a força do vento e evoca a essência da cultura oriental, é Shen Kyomei Ribeiro, um músico com uma trajetória tão singular quanto o instrumento que domina.

Atualmente cursando Bacharelado em Flauta Transversal na ECA aos 62 anos, Shen Ribeiro carrega uma biografia rica em dedicação à música e à cultura japonesa. Ele é discípulo de Goro Yamaguchi, reconhecido como “Tesouro Nacional Vivo” do Japão, e foi honrado com o convite para se apresentar diante do imperador Akihito e sua família – uma experiência que marcou profundamente sua vida e missão.

A Busca Pelo Som que Transformou uma Vida

Nascido José Vicente Ribeiro em Botucatu, interior paulista, Shen – seu nome artístico – teve seu primeiro contato com a música nos cantos comunitários de uma igreja franciscana. Aos 15 anos, ingressou no conservatório, explorando piano, flauta doce e canto coral. Contudo, a música não parecia um caminho profissional imediato, levando-o a cursar Arquitetura em Mogi das Cruzes.

Foi em 1982, ao ouvir um anúncio do Coralusp em um rádio, que a música o chamou de volta. Em São Paulo, o Coralusp revelou a Shen a dinâmica da produção musical, questionando sua escolha pela Arquitetura. Abandonou o curso e, em apenas três anos, ascendeu profissionalmente na música, integrando a Orquestra Jovem do Theatro Municipal com a flauta transversal.

Apesar do sucesso, algo ainda o inquietava. Aos 27 anos, uma gravação em vinil mudou tudo. “Na hora em que ouvi aquele som, disse: nossa, isso é som de flauta! Achei! Agora, como é que vou chegar nisso?”, recorda. Era o shakuhachi, a flauta de bambu japonesa, com sua escala pentatônica e sonoridade única, que surgiu na China entre os séculos 7 e 8 e se tornou instrumento de meditação para monges zen-budistas.

Imersão no Japão: O Mestre e o Palácio Imperial

Impulsionado pela busca, Shen Ribeiro partiu para o Japão em 1987, sem falar japonês, determinado a ser discípulo de Goro Yamaguchi, o lendário mestre de shakuhachi, cuja música foi incluída nos discos de ouro das sondas Voyager da Nasa. Aceito por Yamaguchi, Shen estudou em sua casa e, posteriormente, na Universidade de Artes de Tóquio (Geidai), onde permaneceu por dois anos.

Durante 13 anos no Japão, Shen não apenas aprofundou seu domínio do shakuhachi, mas também descobriu a riqueza da cultura japonesa. Foi pioneiro ao adaptar clássicos da música popular brasileira para o instrumento, criando um repertório inovador. A consagração veio em 1999, após o falecimento de seu mestre. Um convite inesperado da Casa Imperial o levou a uma apresentação informal para o imperador Akihito e sua família, um momento “cinematográfico” que selou seu ciclo no Japão e o impeliu a levar o shakuhachi ao mundo.

O Shakuhachi na USP: Arte, Filosofia e Legado

De volta ao Brasil após uma passagem pela Europa, Shen Ribeiro continua sua missão de disseminar a cultura do shakuhachi. Em 2013, tornou-se mestre no instrumento, recebendo o título de Kyomei, que significa “reverberação do som na pedra”. Acumula condecorações, como o Diploma de Honra ao Mérito do Cônsul-Geral e do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão, e preside a Associação Brasileira de Música Clássica Japonesa.

Sua presença na ECA da USP não é por acaso. Shen busca uma titulação universitária para aprofundar suas pesquisas sobre a sonoridade do shakuhachi e como ele pode aprimorar a flauta transversal, além de explorar a postura de estudo dos instrumentos tradicionais orientais. Para ele, a filosofia zen-budista, que vê o músico como um artífice, um artesão da música, é central. “Eu não procurei o exotismo, eu não estava atrás de um sonho. Eu estava atrás de um som, e continuo atrás dele”, afirma.

Além dos estudos, Shen atua como coordenador de Projetos da Orquestra Sinfônica da USP (Osusp) e já se apresentou com a Orquestra de Câmara da ECA (Ocam), vislumbrando novos projetos na Universidade. Sua jornada com o shakuhachi é uma busca incessante por um “som novo a cada sopro”, uma prática constante de aprimoramento que reflete a beleza e a profundidade de uma tradição milenar.

Fonte: jornal.usp.br

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