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Saúde Urinária de Pessoas Trans: Estudo Pioneiro da USP Revela Ligação Direta Entre Transfobia em Banheiros Públicos e Graves Disfunções

Um estudo inédito realizado na Escola de Enfermagem (EE) da USP trouxe à luz uma associação alarmante: a transfobia enfrentada em banheiros públicos está diretamente ligada a distúrbios do trato urinário inferior em pessoas trans. A pesquisa, que envolveu 131 indivíduos, demonstra como o preconceito social força a adoção de comportamentos sanitários prejudiciais, impactando severamente a saúde e o bem-estar dessa população.

Intitulado Transfobia no Uso de Banheiros Públicos e sua Associação com as Disfunções de Trato Urinário Inferior, Estudo Transversal, o trabalho é resultado do projeto de conclusão de curso da graduanda em enfermagem Brunna Ciarcia dos Santos Arnandes, sob a supervisão da professora Gisela Maria Assis. A equipe contou ainda com a colaboração das estudantes Letícia Delvaz e Beatriz Mariano, todas da Escola de Enfermagem da USP.

Pesquisa Inédita Revela Impactos na Saúde Urinária Trans

A professora Gisela Maria Assis destacou a originalidade da pesquisa, afirmando não terem sido encontrados estudos semelhantes na literatura científica. O objetivo central foi avaliar a transfobia no uso de banheiros públicos e suas consequências nas disfunções urinárias da população trans, buscando compreender o “comportamento sanitário”, ou seja, a forma como a pessoa se relaciona com o banheiro.

Normalmente, a micção é um processo natural e instintivo. No entanto, o estudo aponta que comportamentos modificados pelo medo e insegurança podem ser prejudiciais à bexiga e ao assoalho pélvico – músculos que sustentam a região. Esses comportamentos podem levar a condições como tensão pélvica, infecção urinária, constipação e disfunção sexual, que afetam significativamente a qualidade de vida.

Para a coleta de dados, as pesquisadoras utilizaram um formulário online via Google Forms, com dois tipos de perguntas: objetivas, baseadas em instrumentos validados para avaliar comportamentos sanitários e disfunções, e uma questão aberta para relatos de experiências pessoais. A divulgação ocorreu por meio de líderes de coletivos e instituições trans e pelo método “bola de neve”, em que os participantes indicavam outros, alcançando a amostra de 131 pessoas. A pesquisa foi realizada entre outubro de 2024 e março de 2025.

Comportamentos Sanitários Prejudiciais e Suas Consequências Alarmantes

Os resultados da pesquisa são considerados alarmantes pelas pesquisadoras. Entre os 131 participantes, 87% relataram adiar a vontade de ir ao banheiro, mesmo sentindo a necessidade imediata. Em contrapartida, 70% admitem urinar de forma apressada e forçada. Esses dados estão intrinsecamente ligados a sentimentos de constrangimento (93%) e insegurança (89%) vivenciados em banheiros públicos, com 47% das pessoas trans já tendo sofrido transfobia diretamente nesses locais.

A professora Gisela enfatiza que esses comportamentos foram estatisticamente associados a disfunções como bexiga hiperativa (vontade urgente e incontrolável de urinar), retenção urinária (uma das principais causas de infecções do trato urinário) e incontinência urinária. Os principais motivos que levam pessoas trans a evitarem ou modificarem o uso do banheiro são de ordem estrutural (como a presença exclusiva de mictórios em banheiros masculinos) e, sobretudo, o medo de julgamento, transfobia e agressão.

Perfil dos Participantes e Desafios de Representatividade

A pesquisa apontou que a maioria dos participantes era de etnia branca, com nível de graduação superior ou pós-graduação, predominantemente da classe média. A professora Gisela Maria Assis observa que esse perfil pode ser um reflexo da metodologia de divulgação, que se deu principalmente via redes sociais. Ela ressalta que estudos mais amplos indicam que a população trans no Brasil é majoritariamente preta e parda, com baixa escolaridade e renda, o que aponta para a necessidade de futuras pesquisas que alcancem uma amostra mais representativa da diversidade da população trans.

Reconhecimento Internacional do Estudo Pioneiro

O impacto do estudo de Brunna Ciarcia dos Santos Arnandes transcendeu as fronteiras nacionais. Em junho de 2025, o trabalho foi apresentado com grande sucesso no congresso WOCNext, nos Estados Unidos, um evento global que reúne profissionais de saúde focados em cuidados com feridas, estomias e incontinências. Para a surpresa das pesquisadoras, o estudo foi selecionado entre diversos trabalhos e figurou entre os cinco casos a serem discutidos e evidenciados mundialmente.

Posteriormente, em setembro de 2025, a pesquisa também ganhou destaque no ICS-EUS, congresso da Sociedade Internacional de Continência e da Sociedade Urológica dos Emirados, realizado em Abu Dhabi. O reconhecimento internacional sublinha a relevância e a originalidade da investigação da USP na abordagem de um tema tão sensível e crucial para a saúde da população trans, chamando a atenção global para a urgência de um ambiente mais inclusivo e seguro.

Fonte: jornal.usp.br

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