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Decolonizar o Conhecimento: Como a Indigenização Redefine a Universidade Global e a Conservação de Saberes Plurais

Decolonizar o Conhecimento: Como a Indigenização Redefine a Universidade Global e a Conservação de Saberes Plurais

Da milenar Universidade de Al Quaraouiyine às demandas contemporâneas, a trajetória das instituições acadêmicas revela uma batalha constante pela diversidade e contra a hegemonia colonial na construção do saber.

A história da universidade, instituição milenar, é muito mais diversa do que a narrativa eurocêntrica costuma apresentar. Longe de ser uma invenção puramente ocidental, a universidade mais antiga em funcionamento contínuo é a Universidade de Al Quaraouiyine, fundada em Fez, Marrocos, no ano de 859 por Fatima al-Fihri, uma influente mulher árabe e muçulmana. Este centro de saber se destacou por sua abertura à diversidade de pensamento, formando notáveis figuras de diferentes origens religiosas e culturais. Em contraste, a Universidade de Bolonha, na Itália, de 1088, é frequentemente citada como a mais antiga da Europa, mas sua origem esteve fortemente atrelada à tradição cristã, restringindo a participação a homens e focando em conhecimentos jurídicos para a Igreja e elites, permeada por ideias sectárias.

Antes mesmo de Bolonha, a Escola de Medicina de Salerno, no século VIII, já despontava na Europa como precursora, integrando tradições gregas, árabes e langobardas. Notavelmente, foi a primeira instituição europeia a abrir seu currículo e ensino a mulheres, baseando-se em conhecimento empírico e não autoritário. Este breve panorama revela que a universidade, em sua essência, nasceu como um ‘studium generale’ – uma associação de pessoas de diversas origens dedicadas a todos os tipos de conhecimento, promovendo a circulação de diferentes culturas no espaço público. A palavra ‘universitas’, do latim, significa um todo, uma totalidade, mas também uma sociedade ou corporação, e não se origina do adjetivo ‘universal’, como muitos pensam.

A Colonização do Saber e o Apagamento Histórico

Com o advento da modernidade, intrinsecamente ligada ao colonialismo, um processo de ‘colonização do território do conhecimento’ se instaurou. Este apagamento histórico desconsiderou saberes construídos em contextos extrauniversitários, como as ricas tradições judaicas, árabes, de povos não originários da Europa e das mulheres, entre outros. Nos Estados Unidos, a partir do século XVIII, um processo de ‘indigenização’ começou a moldar as universidades, buscando inserir as necessidades locais da sociedade emergente nas instituições legitimadoras do conhecimento. Mais do que uma tendência passageira, essa abordagem teve um impacto profundo no funcionamento das universidades contemporâneas.

Movimentos Atuais: Decolonizar, Contracolonizar e Valorizar

Atualmente, movimentos acadêmicos intensificam a crítica à persistência de valores coloniais nas instituições e nas formas de construção do conhecimento científico. Pesquisadores apontam a urgência de rupturas nas estruturas hierárquicas, nos métodos de validação e nas próprias formas de ser da universidade. Há um clamor por ‘decolonizar’ o pensamento acadêmico, desmantelando as bases coloniais que ainda o sustentam.

Paralelamente, outros movimentos focam na ‘contracolonização’, enfatizando a persistência de modos específicos de produção de conhecimento em comunidades que permaneceram relativamente apartadas dos impactos da colonização. O objetivo é assegurar que essas práticas construtoras de saber sigam se desenvolvendo comunitariamente e contribuam socialmente, sem serem suplantadas pelas ideologias dominantes das ciências modernas e contemporâneas.

Existe ainda um terceiro grupo de pesquisadores que reconhece e valoriza a permanência de processos específicos de produção e legitimação do conhecimento, sem necessariamente focar na exclusão do saber produzido pelo colonizador. Eles buscam dar espaço e interlocução a discursos e práticas que não foram adequadamente contemplados pelas instituições acadêmicas, reconhecendo seu potencial para enriquecer a ciência em um mundo plural, como um horizonte ético.

O Desafio da Pluralidade e a Conservação do Debate

Esses diferentes caminhos são cruciais e necessários para uma universidade que se recuse a ser capturada por interesses econômicos e políticos dominantes. Não se trata de complementaridade, mas de suplementaridade, onde cada abordagem possui excedentes inabarcáveis pela outra, mas todas coexistem e atuam simultaneamente no processo de democratização da ciência. Embora possam ocorrer choques e conflitos entre esses grupos, a associação estratégica em face de demandas factuais também é uma realidade.

A defesa intransigente da universidade como um espaço plural de debate de ideias é um desafio contínuo. O sujeito do conhecimento, sempre encarnado, é atravessado por demandas extracientíficas, como a conservação de posições institucionais, a necessidade de partilhar recursos escassos e a urgência de levar a sério a expressão de interlocutores cada vez mais diversificados no debate acadêmico-científico. Garantir essa pluralidade é, em última instância, uma forma de conservar a riqueza e a relevância do saber humano em sua totalidade.

Fonte: jornal.usp.br

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