Uma nova esperança surge no combate ao melanoma, a forma mais letal de câncer de pele. Testes clínicos de uma vacina personalizada, a mRNA-4157 (também chamada Autogene Intismeran), em conjunto com o imunoterápico Keytruda, demonstraram uma redução de 49% no risco de morte e retorno do tumor. Os resultados, observados após um acompanhamento de cinco anos, são considerados um avanço significativo para pacientes com melanoma de alto risco.
A Inovação da Vacina Personalizada
O conceito de vacinas personalizadas representa uma revolução na medicina, como explica Rúbens Alves, imunologista e virologista que coordena o grupo de Vigilância Genômica e Inovação em Vacinas no Instituto Pasteur de São Paulo da USP. “É uma tecnologia muito recente, mas o mais importante é que é feita individualmente, para um tipo específico de tratamento. Neste caso, uma vacina personalizada para o câncer é feita especificamente para o tumor daquele paciente”, detalha Alves.
Como a Terapia de mRNA Atua no Combate ao Câncer
O processo de funcionamento dessa vacina é meticuloso e individualizado. Primeiramente, o paciente passa por uma cirurgia para a remoção do tumor. Em seguida, os pesquisadores realizam uma análise genética para identificar mutações específicas presentes nas células cancerígenas. A partir dessa análise, são identificadas as proteínas do câncer, chamadas neoantígenos, que são únicas para aquele tumor.
Com essas informações, é fabricada uma vacina específica de RNA mensageiro (mRNA) para o indivíduo. Essa vacina contém as instruções necessárias para o organismo do paciente reconhecer essas proteínas anômalas. Uma vez aplicada, o sistema imunológico aprende a identificar os neoantígenos como uma ameaça e, consequentemente, destrói as células cancerígenas que os expressam.
A Combinação Essencial para a Eficácia
Os estudos ressaltam que a combinação da vacina com a imunoterapia é crucial para a eficácia do tratamento. O imunoterápico Keytruda atua “removendo os freios do sistema imunológico”, que o tumor utiliza para se esconder no organismo, permitindo que as células de defesa atuem livremente. Enquanto isso, a vacina “ensina” o sistema imunológico a reconhecer especificamente as células cancerígenas.
“Essa combinação é essencial para a eficácia de 49% do tratamento. Hoje, sabemos que muitos dos cânceres precisam de abordagens combinadas para serem combatidos, como a imunoterapia, radioterapia, vacinas, cirurgias e outras”, afirma Rúbens Alves, destacando a importância de estratégias terapêuticas multifacetadas.
Revolução na Medicina e Novas Perspectivas
Alves enfatiza que a criação de vacinas personalizadas representa uma revolução na área da saúde. Além de seu uso no combate a doenças infecciosas, como demonstrado pela pandemia de COVID-19, a tecnologia de mRNA poderá ser aplicada em diversas outras frentes, incluindo doenças raras, outras formas de câncer e até terapias regenerativas.
“Uma das vantagens do RNA é que funcionará como uma instrução temporária para o organismo produzir essas proteínas, esses antígenos específicos para ensinar o sistema imunológico. Isso vai abrir possibilidade não só para doenças infecciosas, mas para inúmeras outras. Eu acredito que em breve vamos ouvir falar muito mais do uso dessa tecnologia”, projeta o imunologista. Ele finaliza expressando otimismo ao presenciar a evolução dos métodos de tratamento, que transitam de terapias agressivas para abordagens desenhadas para o perfil biológico individual, com a tecnologia que combateu a COVID-19 agora sendo adaptada para tratar o câncer e, futuramente, diversas outras enfermidades.
Fonte: jornal.usp.br


