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USP Patenteia Próteses Transformacionais: A União de Artes Plásticas e Engenharia para Reduzir Rejeição e Promover Inclusão Social

A Universidade de São Paulo (USP) marca um avanço significativo na área da saúde e tecnologia com o depósito de seu primeiro pedido de patente pela Escola de Comunicações e Artes (ECA). Fruto de uma parceria transdisciplinar entre pesquisadores da ECA e da Escola Politécnica (Poli), o projeto visa criar “próteses transformacionais” – dispositivos customizáveis que prometem revolucionar a experiência dos usuários, diminuindo as elevadas taxas de rejeição e promovendo uma maior identificação pessoal.

A iniciativa, idealizada pela professora sênior Monica Tavares, do Departamento de Artes Plásticas (CAP) da ECA, conta com o apoio da Fapesp e do CNPq. Em colaboração com o professor Chi-Nan Pai, da Escola Politécnica, e a pós-doutoranda Juliana Henno, a equipe desenvolveu um conceito de prótese que vai além da mera substituição de um membro, buscando uma extensão do corpo que seja também uma expressão de identidade.

O Conceito por Trás da Inovação

O termo “prótese transformacional” é um neologismo cunhado pela professora Monica Tavares, combinando as ideias de “objeto transformacional” do psicanalista Christopher Bollas e “objectile” do filósofo Gilles Deleuze. Diferentemente das próteses cosméticas, que apenas imitam a forma ausente sem funcionalidade, as próteses transformacionais propõem uma relação dinâmica e personalizada com o usuário.

“A intenção da prótese foi não ser mimética, exatamente no sentido de valorizar a possibilidade da customização das cores, das formas, e não fazer algo como se estivesse substituindo o braço, mas algo como uma obra de arte anexada ao braço”, explica Monica Tavares. Essa abordagem visa que a prótese se torne um elemento de design e identidade, e não apenas uma ferramenta funcional ou uma imitação.

A Sinergia Transdisciplinar

A pesquisa se consolidou durante a pandemia, unindo a expertise em arte e tecnologia de Monica Tavares com a vasta experiência de Chi-Nan Pai. O professor da Poli, além de engenheiro mecatrônico, é médico por formação, uma combinação rara que o levou a incorporar a engenharia na medicina. “Eu não saí da medicina e vim para a engenharia. Eu incorporei a engenharia na medicina”, afirma Pai, ressaltando a importância de engenheiros com compreensão médica na criação de tecnologias para a saúde.

A colaboração é fundamental: Chi-Nan Pai é responsável por desenvolver as partes estruturais e funcionais das próteses, enquanto Monica Tavares e Juliana Henno – designer industrial, mestre e doutora pela ECA – trabalham na configuração visual das superfícies de revestimento. Juliana, ex-orientanda de Monica, agora realiza seu segundo pós-doutorado sob supervisão de Chi-Nan, fortalecendo ainda mais a ponte entre as áreas.

Design e Funcionalidade das Próteses

As próteses desenvolvidas são compostas por quatro cilindros principais de aço inox, revestidos por braceletes produzidos via impressão 3D, utilizando plástico ou resina. A escolha do material permite diferentes texturas e uma variedade de cores, com a resina oferecendo maior liberdade na mistura de pigmentos. Um dos grandes desafios da engenharia protética é replicar os 27 movimentos da mão humana, o que exigiria um grande número de motores, tornando a prótese volumosa. Por isso, o foco é na biomecânica dos movimentos mais essenciais para o dia a dia do usuário, visando devolver a funcionalidade e, consequentemente, a reinserção social.

Além dos modelos pré-prontos, o projeto explora o design paramétrico, que permite ao usuário modificar padrões geométricos externos e garantir uma maior adaptabilidade anatômica. Essa personalização profunda é um dos pilares para combater o abandono de próteses, um problema comum que Juliana Henno destaca, impulsionado pela falta de identificação do usuário com o dispositivo.

Impacto Social e o Futuro da Acessibilidade

Atualmente, próteses funcionais de alta qualidade são inacessíveis para a maioria da população brasileira, custando entre 300 e 400 mil reais e não sendo cobertas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Essa realidade força muitos a optar por soluções meramente cosméticas ou de funcionalidade limitada, resultando em altas taxas de rejeição.

As próteses transformacionais da USP buscam mudar esse cenário. “Do ponto de vista social, no momento que a pessoa com deficiência utiliza um projeto desse, é minimizada a questão do estigma e ampliada a questão da autoestima”, afirma Monica Tavares. Chi-Nan Pai complementa, enfatizando a importância de retribuir à sociedade, já que a USP é uma instituição pública que recebe verbas públicas. O objetivo a longo prazo é expandir o projeto para o SUS, tornando essas próteses inovadoras mais acessíveis.

O Caminho para a Patente e Próximos Passos

O pedido de patente, depositado na Agência USP de Inovação (Auspin), é um passo crucial para proteger a invenção e possibilitar sua futura aplicação industrial. No Brasil, o processo de patenteamento no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) envolve etapas como a comprovação de ineditismo, análise documental e exame técnico. Uma vez aprovada, a patente tem validade de 20 anos para produtos ou processos novos.

Para que as próteses cheguem ao SUS, é fundamental realizar testes com um número maior de pacientes, algo que ainda não foi possível devido a desafios de financiamento para a produção em escala. Até o momento, os testes foram realizados pela professora Monica Tavares, que tem um dos braços amputados. O projeto está aberto à participação de estudantes de artes, design e engenharia, em iniciações científicas ou pós-graduação, buscando expandir a equipe e superar os desafios de produção para que essa inovação transformadora possa beneficiar um número cada vez maior de pessoas.

Fonte: jornal.usp.br

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