A Universidade de São Paulo (USP) concedeu, por unanimidade, o título de Doutor Honoris Causa in memoriam ao jornalista Vladimir Herzog. A honraria, proposta pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) e aprovada pelo Conselho Universitário em 24 de fevereiro, é um reconhecimento à sua destacada trajetória profissional e um tributo à sua luta pela democracia e liberdade de expressão, valores pelos quais foi brutalmente assassinado pela ditadura militar em 1975.
Reconhecimento Póstumo e Reparação Histórica
A concessão do título a Herzog, um dos 125 outorgados pela USP em seus mais de 92 anos, marca um gesto simbólico de reparação histórica. O ano de 2025 completará 50 anos de seu assassinato, e a Universidade destaca que a homenagem não só reconhece um profissional comprometido, mas também lembra a interrupção brutal de sua vida e carreira em um dos períodos mais sombrios do Brasil e da própria instituição. A diretora da ECA, Clotilde Perez, enfatizou que, com essa honraria, a USP se posiciona como “a casa dos direitos humanos, da dinâmica de construção e desconstrução constantes dos conhecimentos e das ciências, sempre em harmonia, com amplo respeito a toda a diversidade”, onde “a excelência da pesquisa e do ensino só faz sentido em liberdade”.
A Trajetória de um Jornalista Engajado
Vladimir Herzog, conhecido como Vlado, nasceu em 27 de junho de 1937, em Osijek, Croácia, e imigrou para o Brasil com a família em 1941, estabelecendo-se em São Paulo. Formou-se no curso clássico e ingressou na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, onde conheceu sua esposa, Clarice, com quem teve dois filhos, Ivo e André. Sua carreira jornalística teve início em 1959 no jornal O Estado de S. Paulo, cobrindo eventos marcantes como a inauguração de Brasília e a campanha de Jânio Quadros, além de entrevistar personalidades como Jean-Paul Sartre.
Contribuições à Comunicação e Cultura
Ao longo de sua vida, Herzog dedicou-se intensamente ao jornalismo cultural e à crítica cinematográfica. Ele trabalhou em diversas mídias, incluindo a TV Excelsior, Rádio BBC (em Londres, entre 1965 e 1968), a agência J. Walter Thompson, a TV Universitária da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e as revistas Visão e Opinião, onde atuou como redator e editor de cultura. Vlado também teve participação ativa no cinema, sendo roteirista do documentário “Marimbás” (1963), chefe de produção de “Subterrâneos do Futebol” (1965) e integrando a equipe de som direto de “Viramundo” (1965).
O Legado de uma Luta Interrompida
O projeto da ECA que propôs a honraria ressalta que Herzog foi um jornalista “profundamente comprometido com a comunicação pública, o acesso à informação de qualidade e à defesa dos direitos humanos”. Ele também contribuiu significativamente para a formação de novas gerações de profissionais da área. Sua vida foi tragicamente interrompida em 25 de outubro de 1975, quando foi detido, torturado e assassinado nas instalações do DOI-Codi, em São Paulo, sob ordens do regime militar brasileiro. O título de Doutor Honoris Causa, portanto, não apenas celebra sua memória e contribuições, mas reforça os princípios de democracia, direitos humanos e liberdade de expressão que a USP defende.
Fonte: jornal.usp.br


