A hanseníase, uma doença ancestral ainda conhecida por lepra, continua sendo um grave problema de saúde pública no Brasil, com o diagnóstico tardio figurando como um dos principais motores de sua disseminação. Contudo, uma equipe de pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto está revolucionando o combate a essa enfermidade com o desenvolvimento de ferramentas inovadoras que combinam inteligência artificial (IA) e novos exames de sangue.
A Inovação por Trás do Rastreio Precoce
As tecnologias foram criadas pelo Centro de Referência Nacional em Dermatologia Sanitária e Hanseníase do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP. Um estudo recente da equipe comprovou a eficácia dessas ferramentas em intensificar a busca ativa por novos casos e confirmar diagnósticos de forma mais ágil. A pesquisa, liderada por Filipe Rocha Lima, aplicou as ferramentas em Ribeirão Preto (SP), uma cidade com alta incidência da doença, que já registrou 153 novos casos em 2024.
O estudo utilizou dados de um biobanco de amostras do inquérito sorológico para COVID-19, realizado em domicílios da cidade em 2020. Dentre mais de mil participantes do inquérito de COVID, 224 indivíduos foram submetidos ao questionário QSH (questionário de suspeição de hanseníase), que investiga sinais e sintomas como manchas, dormências e dor nervosa, além de histórico familiar e contato. As respostas foram automaticamente analisadas pela inteligência artificial MaLeSQs®, sistema também desenvolvido pela USP, que identifica padrões de risco para a hanseníase com base nos sintomas relatados.
Biomarcadores Revolucionários no Sangue
Além da IA, os pesquisadores aproveitaram as amostras de sangue do inquérito de COVID-19 para identificar marcadores associados ao diagnóstico da hanseníase e à exposição à bactéria Mycobacterium leprae (M. leprae). Para isso, utilizaram um novo método desenvolvido durante o doutorado de Filipe Lima: a detecção dos anticorpos humanos IgA, IgM e IgG que reconhecem a proteína Mce1A, presente na bactéria causadora da doença.
Os testes sorológicos com os anticorpos anti-Mce1A demonstraram ser biomarcadores cruciais para a detecção precoce. O IgM anti-Mce1A foi encontrado na maioria dos casos novos, indicando doença ativa ou infecção com sintomas de difícil identificação. Já o IgA anti-Mce1A apresentou maior positividade na população, atuando como um marcador de exposição ao bacilo e de circulação silenciosa. Esses anticorpos mostraram um desempenho diagnóstico superior ao anti-PGL-I, antígeno de M. leprae usado até então, tornando-os mais sensíveis para o rastreamento.
Mapeando a Transmissão e Impacto na Saúde Pública
Enquanto o IgM anti-Mce1A e o MaLeSQs® são essenciais para a detecção precoce e eficiência do rastreio, a sorologia com o anticorpo IgA anti-Mce1A revelou as maiores taxas na análise de georreferenciamento, servindo como um alerta para o contato com o bacilo. Ao identificar indivíduos, seus domicílios e regiões da cidade, os pesquisadores podem criar mapas para compreender a transmissão da doença, que em Ribeirão Preto se mostrou difusa, sem correlação estatística significativa com variáveis sociodemográficas.
Para Lima, esses resultados sublinham a importância de integrar biomarcadores sorológicos e plataformas digitais para o diagnóstico precoce da hanseníase. A doença é infecciosa, mas tratável, e o diagnóstico em estágios iniciais pode reduzir drasticamente a transmissão. O objetivo não é erradicar a doença, mas reduzir sua incidência a ponto de não ser mais considerada um grave problema de saúde pública, uma meta ambiciosa, mas necessária, dado que o Brasil notificou mais de 300 mil casos entre 2015 e 2024, sendo 79% deles novos.
O Futuro do Combate à Hanseníase
Os principais sintomas da hanseníase incluem dormências, formigamentos, dor nervosa, fraqueza muscular e manchas na pele com alterações de sensibilidade. Esses sinais podem evoluir para incapacidades e deformidades físicas, problemas que podem ser prevenidos com a detecção precoce. O pesquisador Filipe Lima ressalta que é possível avançar no diagnóstico adotando estratégias como os novos testes sorológicos, capazes de identificar casos iniciais e aqueles que ainda não apresentam sinais e sintomas visíveis.
O uso de tecnologias digitais e inteligência artificial desempenha um papel crucial ao ajudar a priorizar quem necessita de avaliação médica especializada, evitando atrasos no diagnóstico. Essa abordagem contribui de forma decisiva para interromper a cadeia de transmissão da hanseníase, oferecendo uma nova esperança para milhares de brasileiros.
Fonte: jornal.usp.br


