A expressão “masculinidade tóxica” tem ganhado destaque no debate público, frequentemente associada a comportamentos violentos e preconceituosos. No entanto, o conceito é mais complexo do que aparenta, e sua aplicação pode ser problemática. Heloísa Almeida, professora do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, esclarece que, embora indicadores como sexismo e conduta violenta sejam estudados, a masculinidade em si não é inerentemente um problema, e sim a forma como ela é construída e expressa em determinados contextos.
O Desafio do Conceito de ‘Masculinidade Tóxica’
No campo da antropologia, o termo “masculinidade tóxica” não é amplamente empregado. “É um termo avaliativo, que pressupõe a existência de uma normatividade e uma masculinidade boa, oposta à ‘masculinidade tóxica’”, explica Heloísa Almeida. A abordagem acadêmica foca nas diversas construções sociais do que é ser homem ou mulher, atravessadas por marcadores sociais como raça, classe e sexualidade, incluindo as novas questões de gênero como pessoas trans e não binárias. Não existe uma única forma de masculinidade, mas sim múltiplas “masculinidades” que variam conforme a época e a sociedade.
Raízes da Violência em Resposta ao Feminismo
Apesar da ressalva sobre o termo, Heloísa Almeida destaca que certos comportamentos violentos associados à masculinidade surgem como uma resposta direta às conquistas do feminismo. Pesquisas sobre violência, especialmente doméstica, indicam um aumento inicial quando as mulheres começam a conquistar mais direitos. “É uma relação que os homens sentem, de algum modo, ameaçados por novas formas de poder e pelos direitos das mulheres”, afirma a professora. Um exemplo claro é a violência que pode surgir em um relacionamento quando a esposa passa a ter um rendimento maior que o marido, revelando uma masculinidade frágil que se sente ameaçada por qualquer alteração na dinâmica de poder.
A Construção Social de Comportamentos Agressivos
A raiz dessa masculinidade que pode levar à violência é frequentemente encontrada na educação e socialização desde a infância. Heloísa Almeida aponta para ensinamentos naturalizados na sociedade brasileira que moldam essa conduta: “Se o menino chega na escola e chora, o pai vira para ele e fala: ‘Menino não chora! engole o choro!’ Ou o menino chega em casa, triste, e diz que alguém lhe bateu, e as pessoas em volta falam: ‘Bate de volta!’”. Esse tipo de ensinamento suprime a expressão de sentimentos e reforça a ideia de que a reação a ameaças ou infelicidade deve ser violenta, perpetuando um ciclo de agressividade.
Igualdade, Não Ameaça: O Futuro da Masculinidade
Para a professora, as mudanças sociais e as leis que promovem a igualdade não devem ser vistas como ameaças à masculinidade, mas como um caminho para uma sociedade mais justa. A masculinidade que se sente questionada por esses avanços é a mesma responsável pelo aumento de feminicídios, violência contra mulheres, crianças, idosos e pessoas LGBT+. “Quando, na verdade, a gente está só tentando colocar uma situação de maior igualdade na sociedade”, finaliza Heloísa Almeida. O caminho para reduzir a violência de gênero passa pela discussão aberta sobre gênero nas escolas e pela desconstrução desses padrões desde cedo, promovendo uma masculinidade mais saudável e adaptada à igualdade.
Fonte: jornal.usp.br


