A tradição cultural nos ensina que a comemoração dos mortos possui um duplo impulso: é recordação, manutenção da presença, e, ao mesmo tempo, defesa contra o retorno perturbador dos mortos ao espaço dos vivos. Para estabilizar essa delicada ordem entre vivos e mortos, comunidades organizam lugares e tempos específicos, como túmulos, ritos e datas comemorativas. Quando esse equilíbrio falha, patologias sociais como a culpa, a hostilidade e o esquecimento podem emergir.
No Brasil, onde o futebol ocupa um lugar quase totêmico na vida coletiva, existe um ritual breve, mas profundamente eloquente: o minuto de silêncio antes das partidas. Em sua essência, este gesto deveria ser uma suspensão do ruído, um reconhecimento público da perda, uma inscrição do falecido na memória comum. É um rito mínimo, que não exige recursos financeiros ou tecnológicos, apenas silêncio e educação. Um reconhecimento de que aquele morto – seja ex-jogador, dirigente, torcedor ou vítima de tragédia – pertence, ainda que por um instante, à comunidade ampliada.
O Ruído que Engole a Homenagem
Contudo, o que se observa com uma frequência constrangedora é o oposto. Gritos, vaias, cantos organizados e apitos transformam o minuto de silêncio em um minuto de ruído. A homenagem se converte em uma interrupção incômoda do espetáculo, e o morto é engolido pela ansiedade do jogo. É uma dura constatação, mas é preciso dizer que, nesses momentos, o torcedor brasileiro desrespeita os mortos.
Essa observação não se trata de moralismo ou de uma condenação abstrata da paixão futebolística. O futebol, por si só, é um grande ritual contemporâneo, um espaço de pertencimento, identidade e emoção compartilhada. Justamente por essa capacidade de mobilização, deveria ser também um espaço de elevação simbólica. Se há um lugar capaz de produzir silêncio coletivo, é um estádio com milhares de pessoas. Quando isso não acontece, revela-se uma fratura profunda na nossa pedagogia social do luto.
Luto Individualizado e o Pacto Quebrado
Estudiosos da memória apontam que a modernidade deslocou o luto do âmbito comunitário para uma experiência cada vez mais individualizada e psicologizada. A “morte do outro” tornou-se uma tarefa íntima, muitas vezes inconsolável. Ainda assim, rituais públicos permanecem essenciais para estabilizar a ordem entre vivos e mortos, funcionando como índices e narrativas que estruturam a memória coletiva. O minuto de silêncio é uma dessas formas textuais condensadas: uma narrativa muda que proclama “aqui houve vida”.
Quando o silêncio é sabotado, o que se afirma não é apenas indiferença. É a primazia do espetáculo sobre a memória, da excitação sobre o recolhimento, do “nós” tribal sobre o “nós” ampliado. O morto homenageado pode não ser “do meu time”, mas o rito exige o reconhecimento de que, antes de torcedores, somos mortais. Que a vulnerabilidade humana nos iguala.
Um Sintoma Cultural de uma Sociedade Indiferente
Em um país marcado por lutos coletivos mal elaborados – da pandemia às tragédias ambientais, da violência cotidiana às mortes anônimas nas periferias –, o desrespeito ao minuto de silêncio não é um detalhe protocolar. É um sintoma cultural. Ele revela uma sociedade que se tornou indiferente à vida, que consome a morte como estatística, mas hesita em ritualizá-la com a dignidade que lhe é devida.
Sociedades civilizadas sabem parar. Sabem que o silêncio é uma linguagem ética. Sabem que honrar os mortos é, em última instância, honrar a própria humanidade. O estádio, com sua capacidade de reunir massas, poderia ser uma escola cívica de empatia, um espaço de reconciliação simbólica entre vivos e mortos. Quando o minuto de silêncio falha, não falha apenas a organização do evento. Falha um pacto invisível que sustenta a comunidade.
O minuto de silêncio não é apenas sobre o morto. É sobre nós. Sobre a nossa capacidade de manter viva a memória sem transformar o outro em um espectro perturbador. Sobre a escolha entre o ruído que dispersa e o silêncio que funda. E, sobretudo, sobre a pergunta incômoda: que tipo de sociedade somos quando não conseguimos silenciar por sessenta segundos diante da morte?
Fonte: jornal.usp.br


