Crise na Engenharia: Brasil Luta Contra o ‘Apagão de Condições’, Não de Engenheiros, Aponta Estudo da USP
A ideia de uma escassez de profissionais é desmistificada por especialistas, que revelam um cenário de desvalorização, evasão e retração industrial. A solução, segundo a Universidade de São Paulo, passa por um pacto de desenvolvimento e valorização da carreira.
A recorrente narrativa de um “apagão de engenheiros(as)” no Brasil, frequentemente divulgada em jornais e redes sociais, mascara um problema muito mais profundo e estrutural. Segundo um grupo de professores da USP, incluindo Antonio Seabra, Elisângela Moraes e Fernanda Vanin, o desafio não reside na falta de formação de profissionais, mas sim na ausência de condições para que a engenharia se estabeleça como uma carreira atrativa e estratégica para o país.
O diagnóstico apressado, que sugere apenas a necessidade de “abrir mais vagas” ou “formar mais”, ignora um descompasso entre a formação qualificada, a valorização profissional e a capacidade do Brasil de empregar, reter e mobilizar esses talentos em projetos produtivos de longo prazo. A questão central, portanto, não é a quantidade de engenheiros, mas sim a viabilidade da engenharia como caminho profissional.
O Declínio da Indústria e a Fuga de Talentos
Um dos principais fatores por trás dessa crise é a redução do peso da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) e a perda de dinamismo do investimento produtivo. Em economias com forte participação industrial, a demanda por engenheiros é naturalmente maior. No Brasil, com o encolhimento do setor, a procura por esses perfis profissionais tende a se retrair ou se concentrar em nichos específicos, afastando o problema de ser uma falha exclusiva das universidades.
Essa conjuntura leva a um segundo ponto crítico: a retenção de talentos. É comum que profissionais formados em engenharia migrem para o comércio e, sobretudo, para o setor financeiro, em busca de melhores condições de trabalho, salários e reconhecimento. O Minicenso 2024 do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) corrobora essa realidade, com 82% dos respondentes considerando as condições e salários da carreira pouco atrativos. A baixa atratividade não é um problema individual, mas um sinal de que a falta de oportunidades empurra talentos para outros setores.
Evasão e a Lógica do Mercado
A evasão nos cursos de engenharia, muitas vezes atribuída a uma “base fraca” ou “currículo rígido”, também possui raízes mais complexas. Ela está intrinsecamente ligada às expectativas de empregabilidade e retorno econômico. Além da mobilidade acadêmica interna, há uma “evasão tardia”, quando o estudante, perto de concluir o curso, opta por consultorias e o mercado financeiro. Isso demonstra que o percurso formativo dialoga diretamente com o horizonte de futuro que o país é capaz de oferecer.
No que tange à oferta e procura, dados entre 2018 e 2024 mostram que as universidades públicas aumentaram suas vagas em engenharia, enquanto o setor privado reduziu drasticamente a oferta presencial. A queda na demanda por cursos de engenharia, inclusive na USP, não é um desinteresse geracional, mas acompanha a redução de investimentos e a perda de protagonismo da indústria, refletindo ciclos de instabilidade que desorganizam as expectativas de carreira.
A Resposta das Universidades e o Papel da USP
Ciente desse cenário, o Consórcio das Engenharias da USP, em alinhamento com os Objetivos Estratégicos da Pró-Reitoria de Graduação, concebeu um plano de ação em três horizontes. No curto prazo, a prioridade é a permanência e o sucesso acadêmico, com tutoria, apoio pedagógico em matemática, monitoramento de risco e uso de inteligência artificial para detectar gargalos e reduzir a reprovação. Também busca aproximar estudantes do setor produtivo com workshops e parcerias.
No médio prazo, a ênfase recai na ampliação de metodologias ativas de ensino-aprendizagem, disciplinas eletivas transversais e integração com empresas e outras instituições de ensino, além de ações com a educação básica. O objetivo é combinar rigor técnico com percursos mais flexíveis, alinhados a áreas como energia, infraestrutura, mobilidade e tecnologias digitais. A USP já implementou diversas ações, como auxílio permanência, programas de monitoria e modernização de infraestrutura, deslocando o debate do “o que fazer” para “o que está sendo feito e como aprimorar”.
Um Pacto Nacional Urgente
Para o longo prazo, a USP defende que nenhum esforço de formação se sustenta sem um pacto de desenvolvimento nacional. Propõe uma aliança entre USP, Unesp e Unicamp em engenharia, mediada pela Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação, e o fortalecimento de ações com a Secretaria da Educação. A institucionalização da “hélice quíntupla” (sociedade civil, governo, universidade, indústria e meio ambiente), com formação dual e financiamento compartilhado, é vista como crucial para construir um ecossistema onde a formação de excelência encontre demanda consistente e carreiras valorizadas.
A avaliação, baseada em indicadores como taxas de evasão, reprovação, tempo de conclusão e inserção profissional, é decisiva para qualificar o debate sobre o “apagão”. O Brasil não precisa apenas de mais engenheiros, mas de um ambiente onde a engenharia seja uma escolha racional e desejável, com carreira valorizada, demanda consistente, indústria e infraestrutura com rumo e investimento, e universidades capazes de combinar rigor, permanência estudantil, inovação pedagógica e conexão responsável com os desafios do desenvolvimento.
Sem uma estratégia nacional que reanime a base produtiva, valorize o trabalho de engenharia e sustente projetos de longo prazo, o “apagão” continuará sendo um rótulo para encobrir a verdade: não falta capacidade de formar, mas faltam condições para realizar, aqui, a engenharia de que o Brasil necessita.
Fonte: jornal.usp.br


