A redação da Fuvest é uma etapa crucial para milhares de vestibulandos, e alcançar a nota máxima nesse componente pode ser o diferencial para a aprovação. Mas o que exatamente a banca examinadora busca? Professores da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Paulo Martins e Manoel Mourivaldo Santiago-Almeida, desvendam o rigoroso processo de avaliação e os critérios que guiam a correção, ilustrando com um exemplo de texto que conquistou a pontuação perfeita.
O Rigor da Avaliação Fuvest: Processo e Critérios
A avaliação da redação da Fuvest é conduzida de forma randômica e utiliza o método duplo-cego, com um terceiro avaliador atuando como árbitro em caso de divergência, garantindo isonomia e afastando a subjetividade. A prova de 2026, por exemplo, apresentou uma coletânea de cinco textos e uma imagem sobre o perdão, culminando na frase temática ‘O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado’. Além da dissertação, havia a opção de uma carta.
Os critérios de avaliação são divididos em cinco níveis: Nota zero, Tema (peso 3), Estrutura dissertativa (peso 2), Coesão, coerência e progressão argumentativa (peso 3), e Correção gramatical, convenção da escrita e adequação vocabular (peso 2). A nota zero é aplicada em casos de fuga ao tema, cópia da coletânea, explicitação de recusa à avaliação ou entrega em branco.
Abordagem Temática e Autoria (Peso 3)
O primeiro e mais pesado critério, o Tema, vale de um a quatro pontos. Para alcançar a nota máxima (quatro), o candidato deve apresentar uma abordagem aprimorada do tema, com apropriação consistente da coletânea e mobilização de conhecimentos que demonstrem robustos indícios de autoria.
Um exemplo notável de abertura de texto, elaborado por um candidato do vestibular Fuvest 2026, ilustra essa excelência:
“Comecemos pelo Fado tropical, de Chico Buarque. A canção, que integra o texto da peça Calabar, põe na boca de um carrasco o seguinte terceto: ‘E se a sentença se anuncia bruta/ mais que depressa a mão cega executa/ pois que se não o coração perdoa’. Mais que sugerir, provocativamente, que até os carrascos têm sentimento, os versos suscitam o questionamento a respeito da capacidade humana de perdoar – a si mesmo e aos outros.”
Essa introdução não apenas toca na questão central do tema, mas dialoga habilmente com textos da coletânea, utilizando um repertório incomum que denota um forte traço autoral, fruto de uma leitura atenta e produtiva.
Estrutura Dissertativa e Tese Clara (Peso 2)
O segundo critério, com peso 2, foca na Estrutura Dissertativa. A avaliação verifica se o texto é uma dissertação, se possui introdução com tese, desenvolvimento que sustenta essa tese e um fechamento adequado. A nota quatro é atribuída a textos que apresentam a estrutura textual desejada em sua totalidade.
A tese do candidato exemplar demonstra essa clareza e progressão:
“O fato é que, neste mundo em que as redes sociais são, cada vez mais, a própria vida, o perdão se torna uma categoria perigosamente maleável: ao indivíduo que comete um deslize, parece não restar saída outra que não a execração pública; enquanto isso, multidões fecham os olhos, cheios de perdão, para atrocidades que jamais deveriam ser perdoadas.”
Essa tese aponta para uma argumentação progressiva e complexa, que será desenvolvida ao longo do texto.
Coesão, Coerência e Progressão Argumentativa (Peso 3)
Com peso 3, este critério avalia a coesão, a coerência e a progressão argumentativa, ou seja, a articulação de sentido e o bom uso dos elementos linguísticos. Para a nota máxima (quatro), o candidato deve operar uma ótima articulação formal e de sentido, com emprego adequado dos recursos linguísticos e composição textual condizente com a progressão.
No desenvolvimento, o candidato do exemplo mobiliza referências culturais e filosóficas de forma brilhante. Ele invoca a frase ‘o inferno são os outros’ de Sartre para discutir a vigilância nas redes sociais, e cita Chico Buarque (‘E tome pedra na Geni…’) para ilustrar a condenação pública. Em seguida, traz Fernando Pessoa, na voz de Álvaro de Campos, para falar dos ‘príncipes da vida’ que nunca falham.
A progressão argumentativa culmina em uma reflexão profunda sobre a perda da nobreza do perdão na sociedade contemporânea:
“O problema é que, aí, se perde por completo aquilo que a escolha humana de perdoar tem de mais nobre: de um lado, a grandeza de se reconhecer também falível e, com humildade, debater, ouvir, ensinar; do outro, a possibilidade de examinar a própria consciência a fim de se aprimorar enquanto pessoa. Mas não: o perdão, que deveria ser pensado caso a caso, condicionado às circunstâncias específicas em que o erro foi cometido, fica interditado, sem apelação. ‘Cortem-lhe a cabeça!’ é tudo que parecem exigir.”
O texto ainda traz exemplos concretos do mundo contemporâneo, como Benjamin Netanyahu e a anistia no Congresso brasileiro, mostrando a conexão entre a ficção e a realidade. O fecho sintetiza a complexidade do tema:
“Neste império de insensibilidade em que se converteu o mundo, em que se converteram as redes, como, afinal, perdoar? Em que circunstâncias? Até que ponto? Sob que condições? É difícil calibrar essa régua, por mais que reconheçamos claramente descalibrada. Há, por certo, quem mereça a possibilidade de aprender com erros. Mas, cá entre nós, há carrascos tão canastrões, mas tão canastrões, que não deveríamos jamais deixar que nos comovessem.”
Domínio da Norma Padrão e Vocabulário (Peso 2)
Finalmente, o quarto critério (peso 2) avalia a Correção Gramatical, Convenção da Escrita e Adequação Vocabular. Um candidato que rompe mínima e pontualmente as convenções da escrita e demonstra ótimo domínio da norma padrão e do vocabulário recebe a nota máxima (quatro). Pelos excertos apresentados, o candidato exemplar atingiu a nota máxima em todos os critérios, provando que a grade de avaliação da Fuvest é rigorosa e objetiva, não deixando espaço para impressionismos, mas sim valorizando a excelência técnica e argumentativa.
Fonte: jornal.usp.br


