Paulínia: A Ascensão e Queda da ‘Hollywood Brasileira’ Que Prometeu Ser o Futuro do Cinema Nacional
Como uma cidade rica do interior de São Paulo investiu milhões em infraestrutura cinematográfica, atraiu estrelas e se tornou um polo de produção, mas acabou vendo seu sonho se desfazer em meio a descontinuidade política e descaso.
O Sonho de Pauliwood: Uma Cidade Riqueza e Visão Cinematográfica
No início dos anos 2000, Paulínia, município paulista impulsionado pela maior refinaria de petróleo do Brasil, a Replan, ostentava um dos maiores PIBs per capita do país. Em meio a essa prosperidade, a prefeitura vislumbrou um futuro para além do petróleo, apostando em uma ousada diversificação econômica: o cinema. O plano ambicioso incluía exibições gratuitas de filmes, cursos de cinema e teatro, mostras, palestras com nomes consagrados e, o ápice, a construção de um suntuoso Theatro Municipal, inaugurado em 2008. Com 1.300 lugares e sistemas de som e acústica de ponta, o teatro se tornou um símbolo do projeto, que visava transformar Paulínia em uma nova Hollywood, apelidada de ‘Pauliwood’. O investimento totalizou cerca de R$ 89 milhões na construção do teatro, além de milhões em estúdios, festivais e editais de financiamento.
Infraestrutura de Ponta e Estrelas no Tapete Vermelho
A inauguração do Theatro Municipal de Paulínia foi marcada por um desfile de estrelas do cinema e da TV brasileira, evidenciando o potencial do projeto. Nomes como Fernanda Montenegro, Selton Mello e Fernando Meirelles expressaram admiração pela estrutura e pelo projeto visionário. A cidade não se limitou ao teatro: foram construídos quatro estúdios de gravação e um grande estúdio de animação, com o objetivo de descentralizar a indústria cinematográfica nacional, até então concentrada no eixo Rio-São Paulo. A infraestrutura incluía também festivais anuais com premiações em dinheiro e editais que distribuíam milhões para projetos de filmes, incentivando a produção local e a movimentação da economia da cidade. A contrapartida para as produções era clara: gastar 50% da verba em Paulínia e gravar, no mínimo, entre 25% e 50% das cenas na região, garantindo o retorno financeiro e a geração de empregos.
O Declínio: Descontinuidade Política e o Fim do Sonho
O brilho de ‘Pauliwood’ começou a se apagar em 2012, quando o então prefeito José Pavan Jr. suspendeu os editais e o festival, alegando custos elevados e a necessidade de redirecionar verbas para políticas sociais. Essa decisão, criticada por cineastas e produtores, marcou o início do fim do polo cinematográfico. Apesar de um breve retorno sob a gestão de Edson Moura Jr., que promoveu novos festivais e editais, a suspensão definitiva veio em 2015, com o retorno de Pavan Jr. ao cargo. A instabilidade política em Paulínia, com 16 prefeitos entre 2009 e 2019, contribuiu para a descontinuidade das políticas culturais. O resultado é um teatro fechado e em ruínas, escolas de cinema desativadas e prédios que nunca cumpriram seu propósito original, contrastando com a riqueza per capita da cidade, cujas escolas públicas e indicadores de saúde figuram em posições modestas no ranking estadual.
O Legado e o Futuro Incerto da Indústria Cinematográfica Brasileira
A experiência de Paulínia serve como um alerta sobre a fragilidade de projetos culturais atrelados a mandatos políticos específicos, em vez de se consolidarem como políticas de Estado robustas. O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), gerido pela Ancine, e iniciativas como a Lei Rouanet demonstram que o fomento à cultura pode ser um bom negócio, gerando retorno econômico e social. A infraestrutura construída em Paulínia, como o teatro e os estúdios, ainda existe e está em condições de uso, mas a atração de produções é dificultada pela falta de continuidade e de um plano estratégico de longo prazo. A secretária de Cultura da cidade estuda formas de retomar editais e revitalizar o teatro, mas planos concretos ainda não foram apresentados. A história de Paulínia reforça a importância de políticas públicas consistentes para o audiovisual, uma indústria que movimenta bilhões e gera milhares de empregos no Brasil, e que precisa de um ecossistema favorável para florescer e inspirar novas gerações.
Fonte: super.abril.com.br


