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Mitos, Ditaduras e Realismo: Revista da USP Explora a Intrincada Relação entre História e Ficção na Literatura Brasileira

A intrincada relação entre história e ficção na literatura brasileira é o tema central da recém-lançada edição número 23 da revista ‘Teresa’. Ligada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a publicação reúne 11 artigos de pesquisadores da USP e de outras universidades, mergulhando nas diversas formas como escritores brasileiros utilizam e reinterpretam o passado em suas obras. A revista está disponível gratuitamente no Portal de Revistas da USP, oferecendo um vasto material para reflexão sobre a construção da memória e da identidade nacional através da literatura.

Desmistificando Pagu: Entre a Realidade e o Imaginário Popular

Entre os artigos de destaque, ‘A Propósito de Pagu’, da Professora Emérita da FFLCH Walnice Nogueira Galvão, propõe uma análise crítica sobre a figura de Patrícia Galvão (1910-1962). Walnice desmente informações popularizadas sobre a jornalista, escritora e agitadora cultural, como a de que Pagu teria sido a primeira mulher presa política no Brasil. A professora ressalta que Bárbara de Alencar, líder da Revolução Pernambucana de 1817, já havia sido encarcerada décadas antes. Outros mitos, como a suposta introdução de sementes de soja por Pagu da China – quando já havia plantações documentadas no País desde 1884 – e um possível encontro com Sigmund Freud na China, também são desfeitos. Walnice enfatiza a importância do rigor histórico, da comprovação documental e das fontes para diferenciar a realidade das criações do imaginário popular, que, embora sem compromisso histórico, não diminuem os méritos de Pagu.

Ditaduras Latino-Americanas na Ficção: A Reescrita de 1968

José Godoy, escritor e crítico literário, contribui com ‘Reescrevendo 1968 – A Ficção e a Invasão a Universidades Públicas’, artigo que explora a representação das ditaduras latino-americanas na ficção. Godoy aborda o período entre as décadas de 1960 e 1980, quando muitos países da América Latina, incluindo o Brasil, viveram sob regimes autoritários. Ele destaca o ano de 1968, marcado pela invasão de universidades como a de Brasília (UnB) e a Nacional Autônoma do México (Unam), como eventos cruciais que ameaçaram a liberdade de expressão. O autor analisa como a ficção contemporânea tem revisitado esses momentos traumáticos, seja por meio de um realismo que detalha o espaço e o tempo a partir de arquivos e memórias, seja por uma ‘estilização ficcionalizada da história oral e da literatura de testemunho’, que embaralha memórias coletivas e individuais, por vezes sem comprovação documental, na tentativa de evitar que esses fatos se percam no esquecimento.

Machado de Assis e a Paródia Histórica em ‘O Alienista’

O professor Jean Pierre Chauvin, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, investiga a obra machadiana em “O Alienista”, uma Paródia Jurídico-Política?. Ele estabelece uma conexão entre o célebre conto de Machado de Assis e o Decreto-Lei nº82 de 1841, que previa a criação do primeiro Hospital de Alienados no Rio de Janeiro. Chauvin questiona se a publicação do conto em 1881 seria uma ‘celebração paródica da efeméride’, dada a conhecida fusão de história e ficção no realismo de Machado. O artigo também traça analogias entre a trama de Simão Bacamarte e eventos políticos da época, como a Revolta do Vintém (1879-1880), que protestava contra um imposto sobre passagens de bonde, ecoando a crítica social e política presente na obra.

Oswald de Andrade e a Leitura Crítica do Brasil Imperial

No artigo ‘Poemas da Colonização: a Escrita Poética da História em “Pau Brasil” (Oswald de Andrade, 1925)’, Luiz Octávio Ancona, doutor em História Social pela USP, analisa as referências históricas do período imperial brasileiro nos poemas do modernista Oswald de Andrade. O livro ‘Pau Brasil’, com seus poemas em verso livre e sem pontuação, revisita criticamente o passado, expondo injustiças e traumas, como a vida dos escravizados. Ancona aponta que, apesar do título remeter à colonização, o recuo histórico de Oswald foca no Império, sugerindo que a ‘colonização’ é uma característica persistente da identidade brasileira, que transcende a Independência de 1822. O pesquisador reforça que a escrita da história e a produção da memória social não são exclusividade dos historiadores, sendo também realizadas pelos artistas ao representarem o passado.

A edição da revista ‘Teresa’ ainda apresenta outros artigos relevantes, como ‘O Reino da Estupidez: Sátira Estudantil Portuguesa Anônima do Século XVIII’, de Marcia Arruda Franco; ‘Palíndromo, Palavra em Movimento: Viagem, Tempo e História em Guimarães Rosa’, de Marise Hansen; e ‘Antonio Candido e a Formação da Crítica Literária no Brasil: Aposta e Risco’, de Jefferson Agostini Mello. A iniciativa da USP em disponibilizar gratuitamente essa riqueza de conteúdo reforça o papel da academia na promoção do debate cultural e na democratização do acesso ao conhecimento sobre a complexa e fascinante intersecção entre história e ficção na literatura brasileira.

Fonte: jornal.usp.br

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