A crítica brasileira, apesar de um histórico por vezes subalterno da filosofia no cenário cultural, sempre se destacou pela sua originalidade e capacidade de dialogar com os mais amplos conjuntos do pensamento. Figuras como Bento Prado, Machado de Assis e Nísia Floresta, no século XIX, já demonstravam uma vitalidade intelectual que torcia o cânone europeu. No século XX, nomes como Antonio Candido, Roberto Schwarz, Marilena Chauí e Lélia Gonzalez consolidaram essa tradição, movimentando debates centrais que ressoam até hoje.
Nos últimos cinquenta anos, essa efervescência intelectual foi enriquecida por uma nova leva de críticos capazes não apenas de introduzir conceitos inovadores, mas de promover uma metacrítica profunda. Entre eles, João Adolfo Hansen (1942-2026) emerge como uma das mentes mais brilhantes e influentes da história recente da crítica brasileira, deixando um legado indelével que perpassa a academia e a cultura.
O Mestre e a Eficácia da Aula
Para aqueles que tiveram o privilégio de ser seus alunos, Hansen era lembrado por sua gentileza, aulas encantadoras e uma orientação precisa. Seu ensaio “Arte da aula”, publicado em A Terra é Redonda, oferece um vislumbre de sua capacidade pedagógica. Suas palestras, muitas disponíveis online, revelavam um discurso amplo e acessível, demonstrando uma impressionante habilidade de modulação. Hansen era capaz de falar para públicos diversos, desde universitários até alunos do ensino básico, sobre temas complexos como a obra atribuída a Gregório de Matos, sempre com uma precisão conceitual e profundidade argumentativa raras, que tornavam o denso leve.
“A Sátira e o Engenho”: Uma Revolução nos Estudos Coloniais
A tese de doutorado de Hansen, publicada como “A sátira e o engenho”, representou uma verdadeira revolução nos estudos sobre o período colonial brasileiro. Ao analisar a produção poética atribuída a Gregório de Matos e Guerra, ele desconstruiu a noção moderna de “autor” e “autoria” para o contexto do século XVII. Hansen argumentou que esses conceitos eram projeções românticas e positivistas, inapropriadas para um tempo em que a retórica e a poética eram muito mais significativas, e a própria ideia de “literatura” como a entendemos hoje ainda não existia no Ocidente.
Sua obra, em conjunto com a leitura de Alcir Pécora sobre os sermões de Antônio Vieira, deslocou o debate da “nacionalidade” e do “nacionalismo” para a materialidade histórica e textual. Hansen revelou como o engenho da poesia de Matos podia ser compreendido dentro do complexo de ideias do corpo místico português, oferecendo uma nova perspectiva sobre a história do Reino de Portugal e suas formas de dominação no território que viria a ser o Brasil.
O Combate aos Anacronismos e a Materialidade Histórica
João Adolfo Hansen travou uma disputa intelectual vigorosa contra os anacronismos legados pelo romantismo e positivismo do século XIX. Ele rejeitava, inclusive, o conceito de “barroco” como uma categoria histórica dessa natureza, preferindo aprofundar-se na materialidade dos conceitos. Sua abordagem passava ao largo de indefinições, buscando sempre a profundidade argumentativa e a contextualização histórica rigorosa, sem abrir mão da clareza.
Um Legado de Profundidade e Amplitude
A produção de Hansen não se restringiu à crítica colonial. Sua obra abrangeu um notável trabalho sobre a épica luso-brasileira, uma introdução a Dante Alighieri, além de aulas e escritos sobre autores fundamentais da literatura brasileira como Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa e Drummond. Sua amplitude, profundidade e plasticidade o consagraram como um crítico no melhor sentido da tradição brasileira. Diante das modas intelectuais passageiras, João Adolfo Hansen conseguiu produzir uma crítica atemporal, cujos textos, aulas e palestras permanecem hoje como um farol indispensável para qualquer interessado nos objetos que lhe foram caros, destacando-se entre as melhores produções críticas da vasta história intelectual do Brasil.
Fonte: jornal.usp.br


