A melodia de “Deus me proteja”, de Chico César, ecoa como trilha sonora de uma realidade complexa e perturbadora em Santa Catarina. “Deus me proteja de mim. E da maldade de gente boa. Da bondade da pessoa ruim…”, cantam os versos, enquanto o estado, hoje tido como o “estado-maior do bolsonarismo” com quase 70% dos votos para Bolsonaro em 2022, se vê mergulhado em um paradoxo moral: a comoção generalizada pela morte de um cão em contraste com a indiferença diante de atos persistentes de racismo e xenofobia.
O Passado que Resiste: Raízes da Exclusão em SC
A história de Santa Catarina é marcada por um legado de exclusão. Originalmente terra dos indígenas Carijós, o estado foi invadido em 1526, resultando na escravização e dizimação de povos como os Kaingang, Xokleng e Guarani, que ainda hoje enfrentam racismo e desrespeito à sua cidadania. Nos anos 1920 e 1930, Santa Catarina flertou perigosamente com o nazismo, abrigando a primeira célula do Partido Nazista fora da Alemanha, em Timbó, em 1928, e difundindo a ideologia em escolas teuto-brasileiras. Esse imaginário de exclusão, que encontrou terreno fértil no passado, parece resistir ao tempo, reaparecendo sob novas e preocupantes formas.
A Face Atual da Discriminação: Políticas e Discursos Higienistas
Avançando para os dias atuais, a manifestação do racismo e da xenofobia se institucionaliza e se verbaliza abertamente. Em novembro de 2025, o prefeito de Florianópolis, Topazio Neto (PSD), implementou postos de controle de entrada na capital, com o objetivo de “devolver” pessoas “não desejáveis” – pertencentes a grupos étnicos bem definidos – às suas cidades de origem, desrespeitando o direito constitucional de ir e vir. Mais de 500 “indivíduos indesejáveis” já teriam sido mandados de volta.
Em outro ato considerado higienista e racista, o governador Jorginho Mello sancionou uma lei que proíbe cotas raciais em universidades estaduais catarinenses, justificando a medida com a afirmação de que “Santa Catarina tem mais brancos do que negros”. A legislação prevê multa de R$ 100 mil por edital e corte de repasses públicos para quem descumprir.
Segregação e Racismo nas Instituições: Casos Concretos
O racismo se manifesta em níveis ainda mais alarmantes. Em fevereiro de 2025, o vereador negro Teodoro Adão (MDB), de São João Batista, denunciou a separação de crianças brancas e negras em salas de aula distintas em uma creche local, revelando a segregação racial em um ambiente educacional. Em agosto de 2025, o vereador Mateus Batista (União Brasil), de Joinville, defendeu na Câmara a criação de um “Centro de Apoio e Controle Migratório” para controlar a migração de pessoas, com foco específico em moradores do Norte e Nordeste. O vereador sugeriu que aqueles sem comprovação de residência fossem “mandados embora” e chegou a chamar o estado do Pará de “lixo” em seu discurso, alegando que o fluxo migratório poderia transformar Santa Catarina em um “grande favelão”. Vergonhosamente, nenhum tipo de punição foi aplicada por tais atos.
A Hipocrisia da Comoção: O Cão Orelha e a Indiferença Humana
Em meio a esses casos infindáveis de racismo estrutural e institucional, a sociedade catarinense vivenciou um episódio que expõe sua contradição: o assassinato do cão Orelha, em 4 de janeiro de 2026, na Praia Brava, em Florianópolis. A comoção e as manifestações de revolta geradas pela morte do animal parecem, para muitos, uma ironia, um ultraje às pessoas negras, indígenas, nordestinas e nortistas que são diariamente violentadas em sua dignidade e cidadania. Passeatas e protestos pela vida animal parecem vazios quando o racismo impera livremente em órgãos públicos e nas relações interpessoais, e o silêncio dos “inocentes” é ainda mais preocupante, ao assistir impassível a ataques à dignidade humana sem um único gesto de contestação.
Afinal, uma sociedade tão doente, que naturaliza o racismo e a higienização social, tem legitimidade para contestar a morte de um cão? As comoções pela morte de Orelha, para muitos, são apenas uma máscara de falsidade, fantasiada de preocupação com a vida, incapaz de esconder um ambiente onde a indiferença humana se torna a norma.
Fonte: jornal.usp.br


