A menopausa, um processo fisiológico natural que marca o fim da fase reprodutiva feminina, é muito mais do que a ausência da menstruação. Este período de transição é caracterizado por profundas mudanças hormonais, com o estrogênio desempenhando um papel crucial no cérebro das mulheres.
Sônia Maria Dozzi Brucki, professora do Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Grupo de Neurologia Cognitiva e do Comportamento do Hospital das Clínicas, explica a relevância desse hormônio. “O estrogênio possui importantes funções nos nossos cérebros, capacidade de evocar memórias, realizar funções executivas e, quando ele diminui nas fases da pré-menopausa e pós-menopausa, principalmente, ocorrem diversas alterações hormonais no corpo feminino.”
O Estrogênio e as Mudanças Neurológicas
A redução do estrogênio, essencial para a saúde cerebral, não atua sozinha. A menopausa também vem acompanhada de um aumento nos riscos cardiovasculares, como elevação do colesterol, da glicemia e ganho de peso. Esses fatores, agindo em conjunto, contribuem para uma diminuição do funcionamento cerebral feminino, conforme aponta a neurologista.
A importância do estrogênio é vasta, influenciando diretamente funções cognitivas como a memória e as funções executivas, que incluem planejamento, organização e tomada de decisões. Sua queda, portanto, pode gerar um efeito cascata que impacta a qualidade de vida das mulheres.
Dificuldades Cognitivas: Percepção ou Realidade?
É comum que muitas mulheres relatem dificuldades de concentração e memória durante a menopausa, gerando preocupações sobre demência ou Alzheimer. No entanto, Sônia Brucki esclarece que, em muitos casos, essa percepção é mais um declínio subjetivo do que uma alteração mensurável em testes cognitivos padrões.
“Isso parece ser mais uma percepção de um declínio em relação ao que a pessoa era anteriormente, do que exatamente um declínio em relação às outras pessoas, o que quer dizer que não necessariamente está relacionado à demência ou Alzheimer, por exemplo”, afirma a professora. Ela adiciona que essas queixas podem estar ligadas a fatores como sonos interrompidos pelos famosos “fogachos” (calores repentinos), que resultam em déficit de sono e, consequentemente, afetam a atenção, a memória e as funções executivas.
Terapia Hormonal: Uma Opção em Debate
Um dos principais métodos de tratamento para mitigar os efeitos da menopausa é a Terapia de Reposição Hormonal (TRH). Ao repor o estrogênio no organismo, especialmente nos primeiros cinco anos após a menopausa, a TRH pode oferecer proteção contra doenças cognitivas.
Contudo, a neurologista ressalta a necessidade de mais estudos. “Em relação à cognição, temos muito trabalho a ser realizado para dizer se realmente a TRH evita ou melhora a cognição.” Os resultados sobre os efeitos do hormônio na cognição ainda são controversos, evidenciando a complexidade do tema e a importância de pesquisas contínuas para desvendar completamente a relação entre menopausa, estrogênio e saúde cerebral feminina.
Fonte: jornal.usp.br


