Lança-Perfume: A Euforia e o Perigo do Ícone Carnavalesco que Marcou Gerações no Brasil
De perfume europeu a símbolo de folia, a substância inalável encantou e assustou o país, culminando em sua proibição e na busca por alternativas na festa popular.
A história do lança-perfume no Brasil é uma narrativa intrincada que entrelaça euforia, tradição carnavalesca e riscos à saúde. Chegando ao país no início do século XX como um sofisticado perfume europeu, a substância rapidamente se transformou em um elemento quase indispensável da celebração do Carnaval, apelidada carinhosamente de “cheirinho”. Sua aplicação, seja dispersa no ambiente ou inalada diretamente de um pano, proporcionava uma onda de exaltação e desinibição, com efeitos eufóricos de curta duração.
Do Charme Europeu à Popularização Brasileira
Inicialmente, o lança-perfume era importado, com a marca francesa Rhodia liderando o mercado. A Primeira Guerra Mundial forçou a Rhodia a redirecionar sua produção, mas, após o conflito, a empresa estabeleceu uma fábrica no Brasil, em Santo André (SP), para fabricar localmente o popular “Rodo” e outros produtos químicos. A produção nacional impulsionou a disseminação do lança-perfume, que, apesar de oficialmente classificado como perfume, teve sua identidade intrinsecamente ligada ao Carnaval. Milhões de frascos eram vendidos anualmente, e a substância se tornou um elemento visual e olfativo marcante da festa, com exemplos notórios de concursos promovidos por fabricantes para incentivar seu consumo em blocos de rua.
Uma Linhagem de Inalantes Recreativos
A trajetória do lança-perfume no Brasil não surgiu do vácuo. Ele é herdeiro de uma longa tradição de substâncias inaláveis utilizadas para fins recreativos na Europa. Composto principalmente por cloreto de etila, éter etílico e clorofórmio, o lança-perfume compartilha semelhanças com o éter, que já era popularizado em festas vitorianas conhecidas como “ether frolics”. Nessas reuniões, a inalação do éter provocava reações diversas, desde risadas e choro até brigas e danças, comparáveis aos efeitos do óxido nitroso, o gás hilariante. O óxido nitroso, descoberto em 1772, também encontrou seu uso recreativo em festas da nobreza inglesa antes de seu potencial anestésico ser plenamente reconhecido, oferecendo euforia e, em alguns casos, alucinações visuais.
A Proibição e a Adaptação do Mercado Carnavalesco
A crescente percepção dos perigos associados ao uso do lança-perfume começou a ganhar atenção pública no final da década de 1950, impulsionada por figuras como o jornalista Flávio Cavalcanti. Em 1957, um projeto de lei foi apresentado no Congresso Nacional visando proibir sua importação e comercialização, citando o “libertinagem e […] atos de completo amoralismo”. A proibição oficial veio em 1961, com um decreto do presidente Jânio Quadros, que estabeleceu restrições à fabricação, comércio e uso. Após um período de adaptação para as indústrias, a proibição se tornou efetiva em 1962. Contudo, o mercado carnavalesco mostrou sua resiliência e capacidade de adaptação, rapidamente substituindo o lança-perfume por substâncias inalantes de efeito similar, como os “jato-perfumes”. A proibição se estendeu a toda a família de inalantes, incluindo “loló”, em 1966, por decreto do presidente Castelo Branco, visando coibir o uso de aerossóis em festividades. Apesar das leis, a circulação dessas substâncias persistiu, e a distinção entre lança-perfume e loló, por exemplo, permaneceu um ponto de interesse e debate.
Fonte: super.abril.com.br


