Revista USP 148 Mergulha na História do Cine e Telejornalismo Brasileiro com Acervos Inéditos da Cinemateca

Revista USP 148 Mergulha na História do Cine e Telejornalismo Brasileiro com Acervos Inéditos da Cinemateca

Edição especial explora o rico material audiovisual da Cinemateca Brasileira, revelando como cinejornais e telejornais da TV Tupi moldaram a percepção de eventos históricos e debates sociais no Brasil, da Era Dutra à ditadura militar.

A Revista USP, em sua edição de número 148 (janeiro/fevereiro/março de 2026), dedica-se a uma profunda análise das perspectivas históricas da imprensa audiovisual no Brasil, com foco nos cinejornais e telejornais. O dossiê “Cine e Telejornalismo”, organizado pelo professor Eduardo Morettin da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, emerge de um projeto temático Fapesp e se debruça sobre o vasto acervo da Cinemateca Brasileira, considerada o maior repositório audiovisual da América do Sul.

Idealizada nos anos 1940 por Paulo Emílio Salles Gomes, a Cinemateca é guardiã de verdadeiras joias da cinematografia e televisão brasileiras, como o icônico Canal 100, exibido antes dos filmes nos cinemas, e o inestimável Fundo Tupi. Este último, composto por 180 mil rolos de telerreportagens e milhares de roteiros, traz à tona programas jornalísticos que marcaram época, como Edição Extra, Ultra Notícias e O Seu Repórter Esso. O objetivo do projeto, segundo Morettin, é “examinar, no período democrático e da ditadura civil-militar no Brasil, as representações de eventos históricos e grupos sociais, o imaginário e os discursos culturais e políticos delas recorrentes, a partir da coleção de cinejornais e, principalmente, das telerreportagens exibidas pela TV Tupi”.

Desvendando o Acervo Histórico da Cinemateca Brasileira

O dossiê “Cine e Telejornalismo” é um testemunho da recuperação e digitalização de material inédito, fruto de uma parceria exemplar entre universidade pública, agência de fomento estadual e arquivo cinematográfico federal. Essas imagens, adormecidas por décadas nos estojos do Fundo Tupi, agora voltam a circular, recuperando sua dimensão pública original e oferecendo novas lentes para a compreensão da história brasileira.

Entre os artigos que abrem o dossiê, destaca-se a contribuição de Arthur Autran (Universidade Federal de São Carlos) em “O anticomunismo e as massas no Cine Jornal Informativo”. O autor examina como o cinejornal, órgão de divulgação do governo federal, expressava o forte anticomunismo da presidência de Eurico Gaspar Dutra (1946-1951), com foco na repressão ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e a busca por demonstrar apoio popular à política governamental.

Do Cinejornal à Televisão: A Imprensa Audiovisual em Transformação

Rodrigo Archangelo, coordenador de Pesquisa e Catalogação Audiovisual na Cinemateca Brasileira, aborda a transição do cinejornal para o telejornal em seu artigo “Da testemunha ocular à cadência do samba: a democracia na imprensa audiovisual de 1963”. Archangelo compara a cobertura de duas pautas cruciais do governo João Goulart – o plebiscito de 6 de janeiro e as reformas de base – pelo Canal 100 e O Seu Repórter Esso. A análise revela como as diferentes dimensões técnicas e temporais desses veículos (exibição semanal nos cinemas versus veiculação diária na televisão) influenciaram a construção de uma leitura histórica sobre a cultura política brasileira.

O próprio Eduardo Morettin, em “A televisão como fonte histórica: as telerreportagens do Fundo Tupi da Cinemateca Brasileira”, explora a relação entre televisão e história, discutindo o estatuto das telerreportagens como fontes históricas. O artigo recupera os principais autores e eixos teóricos do campo, situando as questões dos acervos televisivos no Brasil e apresentando o trabalho do Projeto Temático Fapesp sobre o lugar dos cinejornais e telerreportagens na construção da memória nacional (1946-1974).

A TV Tupi e os Grandes Conflitos do Século XX

A pesquisa se aprofunda na atuação da TV Tupi frente a momentos críticos da história. Marcos Napolitano analisa “A esquerda armada nos telejornais da TV Tupi (1968-1971)”, investigando as representações – em texto e imagens – das ações da esquerda armada e das forças de segurança durante o auge e colapso das organizações guerrilheiras. O estudo utiliza cerca de 17 filmes de telerreportagens e dezenas de roteiros de locução dos telejornais Ultra Notícias, Diário de São Paulo na TV e O Seu Repórter Esso.

Mariana Villaça, por sua vez, examina “A Revolução Cubana e suas tensões com os Estados Unidos nas telerreportagens da TV Tupi (1960-1963)”. Analisando 20 telerreportagens e roteiros de locução, principalmente de O Seu Repórter Esso, a autora busca compreender a construção do discurso anticomunista e suas transformações após abril de 1961, quando o regime cubano se tornou socialista.

Fechando esta seção, Tânia Costa Garcia, em “Os jornais e telejornais do grupo Diários Associados e a luta transnacional contra a segregação racial nos anos de 1960”, investiga como a violência do apartheid na África do Sul e a luta pelos direitos civis nos EUA repercutiram no Brasil. O artigo analisa as notícias veiculadas pelos telejornais da TV Tupi e pelo impresso Diário da Noite, construindo uma leitura histórica sobre a luta pela igualdade racial em um movimento transnacional.

Outros Destaques da Edição

Além do dossiê central, a Revista USP 148 apresenta artigos relevantes em suas seções. Na seção Textos, Marilia Fiorillo discute as sutilezas da retórica religiosa, enquanto Guilherme Borges revisita, dez anos depois, a presença do discurso religioso no impeachment de Dilma Rousseff. Na seção Arte, Atílio Avancini explora a Festa da Lavagem do Bonfim, mostrando a interseção entre fé, cultura e tradições populares para mitigar as dores do povo.

A Revista USP, uma publicação trimestral da Superintendência de Comunicação Social (SCS) da USP, criada em 1989, reafirma seu compromisso com a disseminação do conhecimento, oferecendo acesso livre e imediato ao seu conteúdo no Portal de Revistas da USP, e consolidando-se como um veículo cultural de caráter ensaístico, multidisciplinar e de excelência no universo cultural brasileiro.

Fonte: jornal.usp.br

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