Em 1588, um jovem Galileu Galilei, então com 24 anos, surpreendeu a Academia Florentina ao dedicar-se por dois dias a uma minuciosa análise da arquitetura do Inferno descrito por Dante Alighieri na Divina Comédia. Em um esforço que unia conhecimentos de Euclides e Arquimedes, Galileu comparou e defendeu um dos modelos propostos para a estrutura infernal, deixando entrever as origens de sua futura concepção de ciência.
Esse fascinante momento histórico ganha nova luz com a tradução para o português das exposições de Galileu, intituladas Duas Lições à Academia Florentina Acerca da Figura, Lugar e Tamanho do Inferno de Dante. A obra, agora lançada como o livro Galileu e a Arquitetura do Inferno de Dante, é fruto do trabalho do professor Pablo Rubén Mariconda, recentemente falecido e docente do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Publicado pela Editora da USP (Edusp) e pela Scientia Studia em edição bilíngue (italiano-português), o livro vai além da mera tradução, constituindo um amplo estudo que conecta a literatura, a ciência e a arte do Renascimento.
A Inesperada Conexão entre Matemática e Poesia
As Duas Lições de Galileu representam um marco na história intelectual, demonstrando como ele mobilizou a matemática para intervir em uma polêmica artística e técnica sobre a arquitetura dantesca. O texto revela a habilidade do jovem cientista em aplicar conhecimentos geométricos recém-adquiridos para analisar e defender um dos modelos do Inferno, um de Antonio Manetti, em detrimento do proposto por Alessandro Vellutello. Esse diálogo de Galileu com a obra de Dante, conforme Leticia Mariconda, filha do autor, aponta na nota introdutória, marca “um momento decisivo da cultura ocidental, situado entre a visão poética e medieval do cosmo e o espírito investigativo do Renascimento”.
O Legado de Pablo Mariconda na USP
A ideia de traduzir os textos de Galileu surgiu de um convite em 2021 para Mariconda participar de uma coletânea em celebração aos 700 anos da Divina Comédia. A empreitada, que se mostrou complexa e instigante, registrou não só a formação da língua italiana, mas também abriu caminho para investigar as raízes da concepção científica de Galileu. Mariconda dedicou quatro anos ao projeto, não apenas traduzindo e reconstituindo desenhos perdidos cruciais para a compreensão do texto, mas também produzindo um estudo que classificou como “uma espécie de arqueologia da formação artística, literária e científica de Galileu, bem como de seu vínculo com o Renascimento florentino dos séculos 14 e 15”.
Professor por mais de 50 anos no Departamento de Filosofia da USP, Pablo Mariconda (1949-2025) foi uma referência em teoria do conhecimento e filosofia da ciência no Brasil. Sua vasta obra incluiu traduções de autores como René Descartes, Karl Popper e o próprio Galileu, além da fundação da revista Scientiae Studia e de grupos de pesquisa dedicados à filosofia, história e sociologia da ciência e da tecnologia.
As Raízes da Ciência Moderna em Dante
Historicamente, as Duas Lições de Galileu receberam pouca atenção da crítica, sendo consideradas irrelevantes para sua trajetória científica por serem anteriores à sua adesão ao sistema heliocêntrico. Contudo, Mariconda argumenta que essa visão é um equívoco. Para ele, a obra é um documento precioso que revela a formação científica de Galileu, especialmente em matemática. O texto mostra que, “desde o início de sua trajetória científica, Galileu adota uma dupla estratégia, experimental e dedutiva, que será constitutiva da prática científica do início da ciência moderna”, conforme o autor. Essa perspectiva renovada sublinha a importância do ensaio na compreensão do desenvolvimento metodológico de Galileu.
Galileu, um Continuador do Humanismo Dantesco
O estudo de Mariconda contextualiza as Duas Lições dentro do vibrante cenário artístico e científico da Florença renascentista. Ele explora a cosmografia anunciada na Divina Comédia, com suas noções de ordem, medida, harmonia e simetria, e as conecta às concepções de beleza e projeto arquitetônico da época. Galileu, ao discorrer sobre matemática, arquitetura e engenharia no vulgar toscano, revela-se um “continuador do impulso humanista de Dante, de fazer filosofia na língua vulgar”, como escreve Mariconda. Essa abordagem demonstra a circulação da expertise entre a concepção arquitetônica e questões de engenharia, evidenciando a interdisciplinaridade do pensamento renascentista e a mente inovadora de Galileu.
O livro de Mariconda, com suas mais de 160 páginas de introdução às Duas Lições, é organizado em quatro partes, incluindo um caderno de imagens, e oferece uma oportunidade única de mergulhar na formação de um dos maiores cientistas da história, através de um olhar que transcende as barreiras disciplinares.
Fonte: jornal.usp.br
