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Desvendada a Dívida de Carbono dos Solos Agrícolas do Brasil: Pesquisa USP-Embrapa Revela Potencial de Recarbonização para Clima e Produção Sustentável

Uma análise abrangente conduzida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) lançou luz sobre a “dívida de carbono” acumulada nos solos agrícolas do Brasil. O estudo, publicado na Nature Communications, quantifica as perdas de carbono decorrentes da conversão de vegetação nativa em áreas de cultivo e pecuária, ao mesmo tempo em que aponta um caminho promissor para o País reduzir suas emissões e fortalecer a agricultura sustentável.

Ao analisar 4.290 registros de solos em todos os biomas brasileiros, o trabalho identificou que a substituição de ecossistemas naturais por atividades agrícolas resultou em uma perda acumulada de aproximadamente 1,40 petagrama de carbono (Pg C) na camada superficial do solo (0 a 30 centímetros). Essa “dívida” representa a quantidade de carbono que deixou de ser armazenada e que, teoricamente, pode ser recuperada através de um manejo adequado, conforme explica João Marcos Villela, primeiro autor do artigo e pesquisador da Esalq/USP.

A Gênese da “Dívida de Carbono” e Suas Variações Regionais

A pesquisa detalha como a “dívida de carbono” se forma e se acumula. O processo é impulsionado principalmente pelo revolvimento mecânico do solo, comum em práticas agrícolas convencionais como a aragem e a gradagem. Essas ações quebram os agregados do solo que naturalmente protegem a matéria orgânica. Com a ruptura dessas estruturas, o oxigênio penetra nas camadas internas e acelera a oxidação da matéria orgânica por microrganismos, liberando o carbono para a atmosfera.

Os solos com maiores estoques naturais de carbono – encontrados em regiões mais frias, úmidas ou com alta presença de argila – são os que sofrem as maiores perdas após a conversão. O estudo também revela que os primeiros 15 anos após a substituição da vegetação nativa são os mais críticos, marcados por uma perda drástica e acelerada de carbono. A dívida não é homogênea: biomas como a Mata Atlântica, com sua alta produtividade vegetal, mostram um elevado potencial de estocagem, enquanto a Amazônia, apesar do grande aporte de matéria orgânica, tem um clima que favorece a decomposição. Já em outros biomas, como o Cerrado ou a Caatinga, a dinâmica do carbono no solo responde a combinações distintas de clima, textura do solo e histórico de uso da terra.

Potencial de Recarbonização: O Solo como Aliado Climático

Os resultados do estudo são encorajadores, indicando que as áreas agrícolas brasileiras possuem um elevado potencial de recarbonização. Práticas de manejo sustentável são a chave para reverter a situação. A recuperação de pastagens degradadas, por exemplo, pode recompor entre 14% e 23% dos estoques de carbono orgânico perdidos. Sistemas mais integrados e diversificados, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), o uso de plantas de cobertura e o plantio direto, demonstraram capacidade de aumentar o aporte de resíduos vegetais e favorecer o acúmulo de carbono no solo.

Segundo as estimativas, a recarbonização de cerca de um terço do potencial total identificado seria suficiente para o Brasil atingir as metas de redução de 59% a 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035, conforme estabelecido em sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC). Isso poderia ser alcançado ao aproveitar aproximadamente 40% a 45% do potencial de recuperação da Mata Atlântica e do Cerrado, estimado em 3,8 Pg de CO₂ equivalente.

Agricultura Sustentável: Produção e Clima de Mãos Dadas

Com cerca de um terço do território nacional (aproximadamente 282,5 milhões de hectares) destinado à agricultura e pecuária, o Brasil tem uma oportunidade única. “Ao quantificar a dívida de carbono dos solos, conseguimos enxergar com mais clareza o potencial de recarbonização dos biomas brasileiros e as possibilidades reais de recuperação de áreas degradadas, mostrando que práticas sustentáveis podem transformar o solo em um aliado da produção e da mitigação climática”, afirma Maurício Cherubin, diretor de pesquisa do Centro de Estudos de Carbono em Agricultura Tropical (CCARBON) da USP.

O estudo reforça a mensagem de que não é necessário avançar sobre novas áreas de vegetação nativa para aumentar a produção agropecuária. Pelo contrário, a intensificação das áreas já convertidas, através de práticas de manejo que recuperem o carbono do solo, aumentem a eficiência produtiva e ampliem a resiliência dos sistemas agrícolas frente às mudanças climáticas, é o caminho mais promissor.

Ciência, Políticas Públicas e Mercado de Carbono

Os pesquisadores esperam que esses resultados subsidiem a formulação de políticas públicas de mitigação climática no Brasil e orientem ações do setor privado. “Quando a gente mapeia a lacuna de carbono no solo, fica mais fácil fortalecer programas como o ABC+, hoje RenovAgro”, destaca o professor Carlos Eduardo Pellegrino Cerri, diretor do CCARBON. Ele acrescenta que a informação ajuda a dar mais credibilidade aos créditos de carbono baseados no solo e a identificar as melhores oportunidades de sequestro e restauração, conectando a ciência às políticas públicas e ao mercado.

O artigo, intitulado “Soil carbon debt from land use change in Brazil”, está disponível para consulta e representa um marco no entendimento e na busca por soluções para um dos maiores desafios ambientais e agrícolas do Brasil.

Fonte: jornal.usp.br

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