A China consolidou sua posição como líder global, assumindo a dianteira em 90% das 74 áreas tecnológicas consideradas cruciais para os interesses nacionais de qualquer país. Essa ascensão, que ameaça diretamente a histórica hegemonia científica dos Estados Unidos, foi detalhada em um estudo recente publicado pela prestigiada revista Nature. Para compreender a dimensão dessa transformação, a professora Marislei Nishijima, do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, oferece uma análise aprofundada sobre como o gigante asiático alcançou esse protagonismo e o que isso significa para o cenário global, incluindo a posição do Brasil.
O que são as “Tecnologias Cruciais”?
Marislei Nishijima elucida que as “tecnologias cruciais” representam um vasto e interconectado ecossistema de inovações. Dentro desse grupo, encontram-se a Inteligência Artificial (IA) e o Machine Learning, que são fundamentais e se apoiam em tecnologias de dados, plataformas digitais, computação em nuvem e infraestrutura digital. A cibersegurança e a criptografia, abrangendo desde a tecnologia Blockchain até outras inovações em finanças digitais, são igualmente vitais. A biotecnologia e as tecnologias da saúde, com avanços notáveis como a técnica de edição genética CRISPR, também figuram com destaque. Além disso, as tecnologias verdes, essenciais para a sustentabilidade, como a energia solar, o hidrogênio verde e as soluções de captura de carbono, são consideradas pilares para o futuro.
A professora da USP ainda expande a definição, mencionando as tecnologias estratégicas e geopolíticas, que incluem os semicondutores – componentes vitais para quase toda a eletrônica moderna –, a computação quântica, a tecnologia espacial e os sistemas autônomos de defesa. Nishijima enfatiza que não se trata de uma categorização rígida, mas de uma intersecção dinâmica, onde, por exemplo, o desenvolvimento de materiais avançados se mostra crucial para diversas dessas áreas. “Esse desenvolvimento tecnológico é importante para os países, porque você tem todo o progresso tecnológico que está sendo desenvolvido que é importante para o crescimento econômico de longo prazo”, pontua, destacando a relevância dessas inovações para o crescimento e a competitividade das nações.
A Estratégia Chinesa para a Liderança Global
O caminho da China até o protagonismo científico global é uma narrativa de planejamento estratégico e execução persistente, conforme detalha Marislei Nishijima. “Está associado com a própria história do desenvolvimento da China nas últimas décadas. Ela entrou num processo de copiar e aprender, copiando com os Estados Unidos e os outros países que têm tecnologias”, explica. Esse processo de aprendizado foi complementado pela capacidade de desenvolver internamente essas tecnologias, alavancando seu gigantesco mercado interno, com uma população de 1,4 bilhão de pessoas. A estratégia era clara: oferecer a China como um campo de trabalho com mão de obra acessível, mas condicionar a realização de negócios à transferência e aprendizagem de tecnologias no país. Isso incluía a contratação de empresas para desenvolver tecnologias localmente e a inclusão de estudantes chineses no processo de aprendizado.
Adicionalmente, a China adotou uma política “muito agressiva” de enviar seus jovens talentos para estudar no exterior, visando as melhores universidades do mundo, especialmente nos Estados Unidos. Nishijima cita o exemplo das engenharias: alunos chineses eram enviados para aprimorar seus conhecimentos e, ao retornar, passavam por testes e comparações com os que haviam estudado na China, permitindo corrigir e fechar a diferença tecnológica. “A China teve como projeto ser a maior nação do mundo e virar um país que é desenvolvedor de tecnologias”, conclui a professora, revelando a visão ambiciosa e de longo prazo que impulsionou o país asiático a se tornar uma potência inovadora.
O Brasil no Cenário Científico Global
Em contraste com a ascensão chinesa, a posição do Brasil no cenário de pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de ponta é de defasagem. A professora Marislei Nishijima aponta que as raízes desse problema residem na base da formação educacional. “O Brasil é um país pequeno do ponto de vista de desenvolvimento tecnológico, visto que nós nunca tivemos uma política de orientação forte de melhora da qualidade da educação”, lamenta a especialista da USP.
Ao longo dos anos, o país focou seus esforços na inclusão de mais crianças no sistema educacional, um avanço social importante, mas que não foi acompanhado por uma melhoria substancial na qualidade do ensino. “Até o momento, o que nós conseguimos fazer foi incluir mais crianças na educação, então a gente fez um movimento de inclusão, mas a qualidade da educação ainda é muito precária no Brasil”, comenta Nishijima. Para que o Brasil possa sonhar em formar cientistas e competir nesse campo estratégico, é imperativo um “movimento de melhoria da educação dessas pessoas”, que deve começar desde a educação básica. “O Brasil patina com isso”, finaliza a professora, ressaltando a urgência de uma reorientação nas políticas educacionais para impulsionar o desenvolvimento científico e tecnológico nacional.
Fonte: jornal.usp.br


