A frota de automóveis de passeio no Brasil atingiu uma idade média preocupante, aproximando-se dos 11 anos. Este dado, que coloca o país em uma posição desfavorável em comparação com nações vizinhas com produção automotiva, revela não apenas problemas setoriais, mas também uma economia estagnada que falha em sustentar o crescimento e a renovação há mais de uma década. Marcelo Augusto Leal Alves, professor e coordenador do Centro de Engenharia Automotiva da Escola Politécnica da USP, oferece uma análise aprofundada sobre as razões e consequências desse cenário.
A Radiografia de uma Frota Envelhecida
O envelhecimento da frota brasileira é um reflexo direto da desaceleração na produção e vendas de veículos. Segundo Alves, o país registrou seu auge produtivo entre 2012 e 2013, com cerca de 3,8 milhões de unidades. Atualmente, a projeção para 2025 é de apenas 2,8 milhões de veículos, um número significativamente abaixo do que era vendido dez anos atrás. Essa queda é acompanhada por uma mudança no perfil do mercado: o carro popular praticamente desapareceu, dando lugar a veículos de maior valor, que oferecem margens de lucro mais atrativas para as montadoras, mesmo com menos vendas.
O professor da USP ressalta que o Brasil, com seu potencial industrial, poderia estar exportando e produzindo cerca de 5 milhões de veículos anualmente. Contudo, o cenário atual é o oposto. A crescente eletrificação global do setor automotivo tem impulsionado a importação de veículos no mercado brasileiro, invertendo a lógica de um país que deveria ser exportador líquido.
O Impacto Direto no Poder de Compra
Um dos efeitos mais concretos do envelhecimento da frota é a diminuição do poder de compra do consumidor brasileiro. A dificuldade de acesso ao crédito e a redução da capacidade aquisitiva das pessoas limitam a renovação de veículos, forçando muitos a manterem carros mais antigos por períodos prolongados. Este ciclo vicioso contribui para a estagnação do setor e perpetua a idade avançada da frota.
Soluções Complexas para um Setor em Mutação
A solução para o problema do setor automotivo é multifacetada e exige ações coordenadas de longo prazo. Marcelo Alves explica que a indústria automotiva global passou por uma transformação, focando na produção de veículos com maior valor agregado e margens de lucro mais elevadas. Reverter essa tendência é um desafio, uma vez que toda a estrutura industrial está adaptada a essa nova realidade. O caminho passa por uma melhora substancial das condições econômicas gerais do país, o aumento do poder aquisitivo da população e, potencialmente, a reavaliação da necessidade do transporte individual em favor de outras opções de mobilidade.
Manutenção: A Chave para a Segurança e Eficiência
Enquanto as soluções de longo prazo não se concretizam, a gestão da frota envelhecida exige atenção imediata. O professor Alves enfatiza a importância de incentivar e facilitar a manutenção dos veículos mais antigos, tornando-a mais acessível e com custos reduzidos. Veículos de dez anos atrás, se bem cuidados, ainda podem ser bastante adequados e seguros. A manutenção não deve ser uma punição financeira para o proprietário já pressionado economicamente, mas sim um meio de garantir a segurança e a eficiência do transporte, evitando que a falta de recursos leve à negligência e a riscos maiores.
Fonte: jornal.usp.br


