Uma nova perspectiva sobre a arquitetura e o urbanismo do Brasil colonial emerge com o lançamento do livro “Arquitetura e Urbanismo nos Primeiros Tempos – Outras Fontes, Outras Leituras”, do professor Nestor Goulart Reis, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP. A obra, publicada pela Editora da USP (Edusp), debruça-se sobre seis desenhos inéditos produzidos no início do século 17, que retratam as primeiras construções edificadas nas então chamadas Capitanias do Sul, região que se estendia do Espírito Santo ao litoral paulista.
Esses valiosos registros, hoje guardados na Real Academia de la Historia, em Madri, Espanha, oferecem um olhar sem precedentes sobre as características da arquitetura urbana dos primórdios da colonização. “Com essa documentação, podemos compreender melhor as características da arquitetura urbana dos primeiros tempos da colonização nessa região, sobre a qual até aqui pouco sabíamos”, afirma Goulart Reis.
A Emergência de Novas Cidades e Fortificações
Os desenhos reproduzem imagens relacionadas a nove povoações das Capitanias do Sul: São Paulo, Santos, São Vicente, Santo Amaro, Bertioga, Rio de Janeiro, Cabo Frio, Vitória e Vila Velha. Segundo o professor, o surgimento desses registros está ligado a uma “mudança na perspectiva política” dos países ibéricos – unidos na União das Coroas (1580-1640) – que passaram a priorizar a expansão terrestre de suas colônias em detrimento da marítima. Essa nova diretriz impulsionou a necessidade de mapas terrestres detalhados.
“Até 1580, não havia documentos de cartografia oficial específicos sobre as formas dos núcleos urbanos do Brasil”, pontua Goulart Reis, destacando que a partir dessa data houve uma política de registro de dados e trabalhos cartográficos como instrumentos de controle administrativo. Foi nesse período que surgiram os primeiros cursos para formação de engenheiros militares em Lisboa e Madri, e a contratação de engenheiros italianos, como Baccio da Filicaia, o primeiro engenheiro-mor do Brasil, que realizaram trabalhos importantes em Portugal e no Brasil.
São Paulo: O Berço da Metrópole
Entre as construções registradas, destacam-se fortificações militares, igrejas, conventos e ermidas. A imagem da Vila de São Paulo, por exemplo, provavelmente retrata a igreja construída pelos padres jesuítas entre 1555 e 1560, que deu origem à atual metrópole. A suposição se baseia na simplicidade das formas, pequenas proporções e ausência de janelas na fachada, características semelhantes às igrejas portuguesas da época. “Antes da grande expansão marítima portuguesa, a arquitetura religiosa local obedecia a padrões mais simples”, explica Goulart Reis.
O desenho de São Paulo também revela, à direita, o Rio Tamanduateí e uma cerca que delimitava a “horta dos padres” entre o rio e a igreja. Essas representações evidenciam uma arquitetura que antecedeu as “modernizações” influenciadas pelas diretrizes do Concílio de Trento, oferecendo um vislumbre das construções do primeiro século de colonização.
São Vicente e Santos: Marcos Iniciais da Colonização
Os desenhos que abordam São Vicente e Santos também registram edificações dos primeiros anos do Brasil colonial. Em um deles, São Vicente é mostrada com duas torres de igrejas que hoje não existem mais. Goulart Reis sugere que poderiam ser as dos jesuítas, com vista para a baía, e a matriz ao fundo, ambas entre as obras religiosas mais antigas do Brasil.
Outro desenho mostra uma igreja e uma construção com três portas, próximo ao local do engenho construído por Martim Afonso de Souza, que fundou São Vicente em 1532. Inicialmente chamado Engenho do Senhor Governador, foi adquirido por Erasmo Schetz e renomeado Engenho São Jorge dos Erasmos, cujas ruínas são hoje um patrimônio tombado pela USP.
Rio de Janeiro: A Baía de Guanabara e Suas Primeiras Edificações
O Rio de Janeiro é retratado em um desenho que mostra a Baía de Guanabara, com a cidade em formação em um dos lados. À esquerda, destaca-se o Morro do Castelo, sítio de fundação da cidade, com a Matriz de São Salvador e o colégio dos jesuítas e sua igreja. A matriz é representada com uma nave central e duas laterais, e na fachada, uma grande porta de entrada e apenas um óculo (abertura circular ou oval).
Goulart Reis enfatiza a fidedignidade dessas representações: “As posições dos edifícios mais importantes e dos acidentes geográficos (os morros e as praias) correspondem ao existente. Não se trata, portanto, de uma representação aleatória e podemos acreditar que suas partes sejam, também elas, documentos fidedignos.” O desenho permite visualizar a igreja dos jesuítas, inaugurada em 1588, e o colégio, construído a partir de 1584, ambos com um óculo no frontão, voltados para a praia da cidade e a Rua Direita em formação.
Os seis desenhos foram adquiridos pela Real Academia de la Historia de Madri em 1830, e sua procedência exata ainda é desconhecida. Foi a historiadora Carmen Manso Porto quem os identificou e publicou em 1999, no livro “Cartografia Histórica Portuguesa: Catálogo de Manuscritos – Século XVII e XVIII”. Com cópias digitais desses originais, o professor Nestor Goulart Reis elaborou esta obra essencial para a compreensão da história arquitetônica e urbanística do Brasil.
O livro “Arquitetura e Urbanismo nos Primeiros Tempos – Outras Fontes, Outras Leituras”, de Nestor Goulart Reis, tem 168 páginas e está disponível pela Editora da USP (Edusp) por R$ 120,00.
Fonte: jornal.usp.br


