Resiliência Ecológica em Ação
Dez anos após o rompimento da Barragem do Fundão em Mariana (MG), que liberou milhões de metros cúbicos de rejeitos tóxicos no Rio Doce, um estudo da Universidade de São Paulo (USP) trouxe à luz a impressionante capacidade de adaptação da vegetação local. Pesquisadores descobriram que plantas como o assa-peixe (Vernonanthura polyanthes) e o jaborandi-do-mato (Piper aduncum) desenvolveram mecanismos de defesa específicos, alterando seu metabolismo para sobreviver à contaminação por metais pesados como ferro, arsênio, mercúrio, cádmio e manganês.
Estratégias de Sobrevivência Vegetal
Organismos sésseis, as plantas não podem fugir de ambientes hostis. Diante do estresse ambiental causado pelos rejeitos que contaminaram mais de 650 km da bacia do Rio Doce, algumas espécies demonstraram a habilidade de modificar seu metabolismo. O estudo, publicado na revista científica ACS Omega, revelou que, embora visualmente indistinguíveis de plantas de áreas não afetadas, os exemplares coletados na região contaminada apresentavam diferenças químicas significativas. Essas mudanças foram observadas em indivíduos coletados cerca de dois anos após o desastre.
Metabolismo Alterado: Defesas Específicas
A exposição aos metais pesados ativou vias metabólicas distintas em cada espécie. No caso do assa-peixe, houve um aumento na produção de peptídeos, enquanto o jaborandi-do-mato intensificou a produção de fenilpropanoides. Essas substâncias atuam como mecanismos de defesa, amenizando as consequências da toxicidade dos metais nos tecidos vegetais. A pesquisadora Marília Gallon, autora do artigo, destaca que as estratégias de sobrevivência não foram genéricas, mas específicas para cada espécie, evidenciando uma adaptação molecular profunda.
Alerta sobre Uso Medicinal
Tanto o assa-peixe quanto o jaborandi-do-mato são plantas comumente utilizadas pela população local por suas propriedades medicinais. No entanto, os pesquisadores alertam que as alterações metabólicas induzidas pela contaminação podem ter consequências. Existe a hipótese, ainda não testada neste estudo, de que essas plantas possam se tornar tóxicas ou ter sua eficácia medicinal reduzida. Essa descoberta ressalta a importância de cautela e de novas pesquisas para avaliar a segurança e o potencial terapêutico dessas espécies adaptadas ao ambiente contaminado, além de contribuir para a compreensão da resiliência ecológica em áreas degradadas.
Fonte: super.abril.com.br


