As portas do laboratório da professora Elaine Del Bel Belluz Guimarães, da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (Forp) da USP, abriram-se para alunos do ensino médio, proporcionando uma experiência científica incomum nessa etapa da formação escolar. Desde 2024, estudantes da Escola Técnica Senac têm participado de um projeto de pesquisa que os introduz a um fenômeno central da nanotecnologia: a ressonância plasmônica de superfície localizada em nanopartículas de prata.
A iniciativa, orientada pelo pesquisador Gabriel Lobo, da Escola Técnica Senac, em parceria com a professora Elaine, aproxima os jovens de um campo onde a interação entre luz e matéria ocorre em escala nanométrica, invisível ao olho humano. O estudo investiga, por exemplo, por que determinados materiais mudam de cor quando iluminados – um comportamento típico de nanopartículas metálicas com potencial de aplicação em sensores ópticos, dispositivos eletrônicos e até na área da saúde.
Imersão na Pesquisa em Nanoescala
A parceria nasceu em 2023, quando a ex-aluna da USP Keila Bariotto dos Santos, hoje professora na Escola Técnica Senac, procurou a professora Elaine sobre um edital para alunos do ensino médio. Apesar de os estudantes não terem podido receber bolsas por serem de uma escola privada, o grupo decidiu seguir com o projeto. “A parceria foi mantida e segue desde 2024, com alunos selecionados e dois docentes envolvidos diretamente na orientação das atividades”, explica Elaine.
Para Gabriel Lobo, a proposta surgiu do desejo de ampliar o acesso de estudantes do ensino médio a experiências científicas mais profundas. “Criamos um projeto relacionado à física, eu como docente de Física vinculado à nanotecnologia, que é a minha área de pesquisa, e a professora de Biologia Keila, que criou um projeto relacionado às neurociências. Portanto, desde 2023 estamos colocando esse projeto para frente”, afirma.
Da Teoria à Prática: O Valor da Pré-Iniciação Científica
Ao longo do trabalho, os estudantes realizaram a síntese de nanopartículas de prata e analisaram suas características por meio de técnicas espectrofotométricas, relacionando os picos de absorção de luz ao tamanho, à concentração e à estabilidade das partículas. Segundo Gabriel, “ao longo de um ano no projeto, os alunos conseguiram ser imersos nessa área de forma bem efetiva, com o desenvolvimento de conteúdos que eles ainda não tinham visto, e conseguiram agregar no currículo deles”.
Para a professora Elaine, a experiência de pré-iniciação científica é fundamental para ampliar horizontes e aproximar os jovens do ambiente universitário. “O maior objetivo é motivá-los, mostrar quão interessante são os estudos que podem ser realizados nos laboratórios da Universidade e que é possível. As crianças precisam saber que é possível”, destaca.
Transformando Trajetórias: O Impacto nos Estudantes
Além dos resultados técnicos, o projeto se destaca pelo seu caráter formativo. Os alunos tiveram contato direto com práticas de laboratório, leitura de artigos científicos e discussão de conceitos fundamentais da ciência, em uma aproximação concreta com o cotidiano da pesquisa acadêmica.
A estudante Júlia Bernardes Fernandes relata que a experiência foi seu primeiro contato aprofundado com temas normalmente restritos ao ensino superior. “O que é ensinado durante o ensino fundamental e médio é uma base para o ensino superior. Comecei a perceber isso quando tive campo elétrico na escola, por ser uma área que eu tenho um pouco de dificuldade, mas ele está muito interligado com a nanopartícula e inserido no meio”, explica. Júlia conta que os conhecimentos adquiridos no projeto tiveram impacto direto em sua trajetória: “Em 2025 eu entrei na graduação em Química na Unesp e já comecei uma iniciação científica. Então toda essa pesquisa, esse projeto, me ajudou a chegar no lugar que estou hoje, mesmo que esteja no começo do curso, e ainda vai me ajudar a abrir outras portas”.
Yasmim Muniz Ramos, outra participante da pesquisa, percebeu como a vivência deu novo sentido aos conteúdos vistos em sala de aula. “Os conceitos que estudávamos começaram a aparecer diretamente no desenvolvimento do projeto. A pesquisa funcionava como uma aplicação prática da teoria, o que dava muito mais sentido aos conteúdos”, afirma. Yasmim também enfrentou desafios com conceitos avançados, como a ressonância plasmônica, e desenvolveu novas habilidades, incluindo programação, área pela qual descobriu um certo gosto.
Para Yasmim, a experiência teve um valor ainda maior como mulher interessada na ciência. “Participar deste projeto representou uma forma de inserção e fortalecimento no meio científico. Esse incentivo a alunos do ensino médio, especialmente jovens, para entrarem no mundo da ciência e perceberem que são capazes é algo fantástico”, conclui, descrevendo a vivência como “uma oportunidade essencial para o meu crescimento pessoal e acadêmico”.
Fonte: jornal.usp.br


