Aneurismas Intracranianos: Pesquisa da USP Revela DNA Bacteriano da Boca e Intestino, Sugerindo Fator de Risco Inédito para a Condição

A falta de higiene bucal e dietas ricas em açúcares e carboidratos podem ter uma relação inédita com os aneurismas intracranianos (AIs). Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) encontraram DNA bacteriano de *Escherichia coli* na parede de aneurismas, um achado que sugere um novo fator de risco a ser investigado para a formação e ruptura dessas perigosas dilatações vasculares no cérebro.

A associação foi considerada positiva e significativa, estando presente em 44% dos casos avaliados. Contudo, os cientistas ressaltam a necessidade de mais estudos para aprofundar essa correlação. As análises foram realizadas em amostras coletadas durante microcirurgias de aneurisma em pacientes do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina (FM) da USP, utilizando técnicas de PCR para a detecção do DNA bacteriano.

A Conexão Bacteriana e a Inflamação Crônica

Nícollas Nunes Rabelo, médico neurocirurgião e primeiro autor do trabalho, explica que a bactéria *E. coli* é geralmente comensal, ou seja, vive no corpo humano sem causar danos. No entanto, o estudo demonstra que, em alguns pacientes, ela adquire patogenicidade – a capacidade de causar doenças. “A presença da bactéria fragilizou o vaso por um processo inflamatório, segundo as pesquisas”, relata Rabelo.

Este fator de risco emergente está associado à inflamação sistêmica, que pode ser desencadeada por infecções periodontais (na gengiva) e desequilíbrios na microbiota intestinal. Essas inflamações são frequentemente indolentes, progredindo lentamente e permitindo o estabelecimento de um estado inflamatório crônico. Eberval Gadelha Figueiredo, professor da FMUSP e orientador do estudo, destaca que é essa característica que permite à bactéria contribuir para a formação ou ruptura do aneurisma, ao contrário de bactérias mais virulentas que causariam uma doença aguda e não um processo crônico.

Um Novo Olhar sobre Fatores de Risco

Os aneurismas são vasos sanguíneos fragilizados que formam uma dilatação anormal, podendo se romper e levar a altas taxas de mortalidade. Embora fatores como tabagismo, hipertensão arterial, predisposição familiar e síndromes como a de Marfan sejam amplamente conhecidos, a pesquisa da USP abre caminho para a compreensão de que fatores comportamentais podem ter um papel maior do que se imaginava.

A hipótese é que bactérias, possivelmente originárias da boca ou do intestino, circulem pela corrente sanguínea, se alojem em uma artéria cerebral e causem uma inflamação que remodela o vaso, levando à formação do aneurisma. “Existem trabalhos em relação a aneurismas de aorta e vários trabalhos em relação à doença periodontal, então a gente começou a fazer a correlação. Fizemos alguns testes avulsos que começaram a vir positivos e aumentamos a amostra até que a gente conseguiu consagrar [o resultado]”, explica o neurocirurgião.

Prevenção e a Importância da Microbiota

A descoberta reforça o foco atual da saúde na prevenção. Ao compreender esses potenciais fatores de risco, é possível promover um maior cuidado com a saúde intestinal e oral. Figueiredo enfatiza a importância de manter bons hábitos alimentares, priorizando alimentos naturais e reduzindo o consumo de álcool e tabaco, que são prejudiciais à flora intestinal.

O professor destaca que o corpo humano abriga trilhões de bactérias, que produzem substâncias protetoras ou tóxicas. O reconhecimento do valor da microbiota intestinal para o bom funcionamento do organismo é crescente e fundamental para novas abordagens preventivas na medicina.

Limitações e Próximos Passos

Apesar dos achados promissores, os pesquisadores alertam que a detecção do DNA bacteriano nos aneurismas indica uma correlação, mas não necessariamente uma relação de causa e efeito. “Encontrar uma marca da bactéria ou de um vírus na parede de aneurismas não significa que aquilo é causal”, pontua Figueiredo, ressaltando a necessidade de estudos mais aprofundados para observar se existe uma causalidade direta.

Entre as limitações do trabalho, citam-se a ausência de coleta de amostras de outros tecidos (como gengiva, sangue, intestino e cérebro) para rastrear a origem da infecção, e o número de indivíduos avaliados (36 no total). Rabelo explica que a falta de verba impediu a coleta adicional, e o número de pacientes foi o máximo possível dentro dos critérios de inclusão e exclusão. Este estudo se insere em uma rede de pesquisas que investigam a condição, com trabalhos anteriores da FMUSP já tendo detectado a existência de vírus em amostras de tecidos de aneurismas intracranianos.

Fonte: jornal.usp.br

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