Plantas Medicinais: Esperança Acessível no Combate ao Câncer com Base em Saberes Ancestrais e Ciência
Pesquisa da UERJ une etnofarmacologia e tecnologia moderna para validar o potencial terapêutico de espécies como o Aranto contra doenças oncológicas, visando tratamentos mais equitativos.
Diante de um cenário global com mais de 21.3 milhões de pessoas diagnosticadas com câncer, e com prognósticos frequentemente impactados por desigualdades socioeconômicas no acesso à saúde, plantas medicinais como o Aranto (gênero Kalanchoe) surgem como um farol de esperança. Uma pesquisa desenvolvida pelo Laboratório de Mutagênese (Labmut) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) tem se dedicado a unir o conhecimento ancestral, transmitido por gerações através da etnofarmacologia, com a rigorosa validação científica.
O Legado Ancestral e a Busca por Terapias Inclusivas
O câncer é uma doença que afeta milhões, e a chance de sobrevivência é diretamente influenciada por fatores como pobreza, local de moradia e raça, que criam barreiras para o diagnóstico precoce e o acesso a tratamentos eficazes. Nesse contexto, o uso tradicional de plantas medicinais representa uma ponte entre saberes ancestrais e as lacunas terapêuticas atuais. Espécies como o Aranto, conhecido popularmente como Mãe-de-milhares ou Folha Miraculosa, exemplificam a profundidade e sofisticação do conhecimento etnobotânico. Estas plantas, incorporadas em práticas terapêuticas de matriz africana e em sistemas religiosos afro-brasileiros, são mediadoras entre corpo, território e ancestralidade, demonstrando uma resiliência e capacidade de adaptação notáveis.
Evidências Científicas Validam o Potencial do Aranto
Espécies como Kalanchoe pinnata e Kalanchoe daigremontiana, populares por seu valor ornamental e facilidade de cultivo, têm sido tradicionalmente utilizadas no tratamento de feridas, inflamações, dermatoses e até mesmo doenças proliferativas. A ciência contemporânea tem progressivamente validado essas aplicações. Estudos têm demonstrado propriedades anti-inflamatórias, cicatrizantes e antimicrobianas, com mecanismos de ação que incluem a redução de mediadores inflamatórios e a promoção da angiogênese. Além disso, pesquisas apontam para efeitos hepatoprotetores, antioxidantes e hipoglicemiantes, que podem auxiliar no equilíbrio metabólico e na eliminação de toxinas, justificando seu uso tradicional no combate à hipertensão.
Ação Antitumoral Seletiva e a Importância dos Extratos Aquosos
Particularmente promissora é a ação antitumoral seletiva da Kalanchoe daigremontiana. Pesquisas indicam que compostos como os bufadienolídeos e flavanóides glicosilados presentes na planta podem modular genes ligados à morte celular e ao balanço redox em células tumorais, demonstrando eficácia contra diversas linhagens de câncer, como de pele, colo do útero, ovário, mama e melanoma. A pesquisa do Labmut/UERJ, utilizando técnicas analíticas modernas como cromatografia líquida de alta eficiência acoplada à espectrometria de massas, tem revelado uma vasta gama de compostos bioativos com potencial farmacológico nos extratos aquosos da planta. Este método de extração dialoga diretamente com as práticas tradicionais de preparo, como chás e infusões, validando cientificamente a eficácia da água como solvente para compostos biologicamente relevantes.
Um Caminho para Terapias Acessíveis e Sustentáveis
A integração de saberes ancestrais e ciência moderna representa um caminho promissor para o desenvolvimento de terapias contra o câncer que sejam não apenas eficazes, mas também acessíveis, culturalmente contextualizadas e sustentáveis. Ao investigar e validar o conhecimento tradicional sem deslegitimá-lo ou apropriar-se dele, a comunidade científica contribui para a construção de soluções em saúde mais equitativas, especialmente para comunidades historicamente marginalizadas. Essa abordagem reforça a importância da preservação da biodiversidade e da justiça social, alinhando-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e promovendo um futuro onde o cuidado em saúde seja verdadeiramente inclusivo.
Fonte: super.abril.com.br


