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USP e BNDES impulsionam saúde na Amazônia com aplicativo inovador para comunidades ribeirinhas e indígenas

Em uma iniciativa que promete transformar o acesso à saúde em algumas das regiões mais vulneráveis do Brasil, a Universidade de São Paulo (USP) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) se unem para levar soluções tecnológicas e cuidado integral à Amazônia. O projeto interinstitucional “Tecendo Linhas do Cuidado Integral à Saúde na Amazônia”, coordenado pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e com participação do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, conta com financiamento do BNDES e apoio da Associação Umane.

A iniciativa, liderada pela professora Aylene Emilia Moraes Bousquat da FSP, tem como objetivo principal reduzir as iniquidades de saúde em comunidades ribeirinhas, indígenas e isoladas do Baixo Amazonas e do Tapajós, nos estados do Pará e do Amazonas. A proposta busca fortalecer a atenção primária e implementar soluções digitais adaptadas à realidade local, melhorando a qualidade do cuidado. Para isso, o projeto atuará em diversas frentes, incluindo a governança e articulação com gestores, o fomento à participação social, a qualificação da demanda da Atenção Primária para a Atenção Especializada (AE) por meio de treinamentos e telessaúde, e a incorporação do autocuidado com ferramentas digitais.

Desenvolvimento de Tecnologia para o Cuidado Remoto

Um dos pilares do projeto é o desenvolvimento de um aplicativo robusto, idealizado para pacientes e profissionais de saúde das Unidades Básicas de Saúde (UBS). A equipe de desenvolvimento conta com Alison Cordeiro Sousa (mestrando) e Lucas Padilha Modesto de Araújo (doutorando), ambos do ICMC. A escolha dos pesquisadores surgiu de um diálogo entre a professora Aylene e o professor Adenilso Simão, também do ICMC, após desafios com empresas que não compreendiam a natureza social da proposta.

Os estudantes foram selecionados por sua trajetória acadêmica, capacidade interdisciplinar e interesse em criar soluções tecnológicas que realmente se conectem com a realidade amazônica. “Buscávamos estudantes que não apenas dominassem as ferramentas técnicas, mas que estivessem dispostos a compreender o território, dialogar com as equipes de saúde e construir soluções junto com quem está na ponta do sistema”, explica a professora Aylene, ressaltando a importância dessa parceria para traduzir necessidades complexas em ferramentas digitais viáveis e seguras.

Um Aplicativo Completo para Profissionais e Pacientes

O aplicativo, em desenvolvimento desde dezembro de 2023, visa principalmente aumentar a comunicação entre usuários e equipes de saúde e promover o autocuidado. Ele está sendo construído em reuniões frequentes com a equipe de saúde, onde protótipos são apresentados e os retornos diretos guiam o desenvolvimento. Entre as funcionalidades previstas, destacam-se:

  • Registro de Sinais Vitais: Usuários poderão inserir dados de aparelhos de pressão, balanças e medidores de glicose.
  • Comunicação Direta: Função “Converse Conosco” para envio de mensagens e solicitações à equipe de saúde.
  • Painéis de Monitoramento: Painéis interativos que classificam pacientes por cores (vermelho para Casos Críticos, amarelo para Atenção Necessária e verde para Estáveis).
  • Alertas em Tempo Real: Geração automática de avisos baseados em regras clínicas, como “Crise Hipertensiva” ou “Glicemia Crítica”.
  • Gráficos de Evolução: Visualização interativa do histórico de indicadores (peso, pressão) para análise de tendências.
  • Prontuário Digital: Acesso a registros estruturados de atendimentos, anotações clínicas e histórico de medicamentos.

Um dos maiores desafios, segundo Alison, é garantir que o aplicativo funcione tanto online quanto offline, permitindo que os profissionais registrem dados mesmo sem conexão, com sincronização automática quando disponível. A segurança da informação e a adequação inicial à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já estão sendo incorporadas.

Visão de Futuro: Da Integração ao SUS à Inteligência Artificial

Embora o foco inicial do projeto esteja no Baixo Amazonas e no Tapajós, a ambição é maior. A equipe trabalha para que a solução possa ser integrada ao Sistema Único de Saúde (SUS) e adaptada a outras regiões do País. “Se der certo lá, o aplicativo pode, inclusive, ser ampliado para outros lugares, porque estamos testando no cenário mais adverso possível”, afirma a professora Aylene Bousquat.

Em etapas futuras, o projeto pretende incorporar recursos de inteligência artificial (IA). “A ideia é que, com o acúmulo de dados históricos e a devida validação clínica, seja possível aplicar técnicas de machine learning para aprimorar o que já existe hoje, criando modelos preditivos, identificando padrões mais complexos nos sinais vitais e apoiando a tomada de decisão dos profissionais de saúde”, explica Alison. Para garantir a efetividade da ferramenta, está prevista uma ida a campo para que os desenvolvedores acompanhem de perto o uso nas comunidades. “Nada substitui ouvir quem está na ponta”, pontua Lucas.

Impacto Abrangente na Saúde Amazônica

O projeto visa atuar sobre diversas frentes da Atenção Primária à Saúde (APS), aprimorando a estratificação de risco para pessoas com hipertensão e diabetes, melhorando o cuidado de gestantes em áreas de difícil acesso, qualificando a atenção à saúde bucal com teleodontologia e ampliando o acesso a seus serviços. Na frente materno-infantil, com foco em segurança alimentar e desnutrição, articulará com projetos da sociedade civil e governamentais para ampliar a sustentabilidade e fortalecer a comunicação com as comunidades, além de contribuir para a implementação de um polo de telessaúde na região.

“O projeto Tecendo Linhas do Cuidado Integral na Amazônia atua diretamente para reduzir as acentuadas assimetrias de saúde que a região amazônica enfrenta em relação ao restante do Brasil. Ao colaborar com populações e instituições locais do Baixo Amazonas e Tapajós, fortalecendo o SUS, a iniciativa identifica os problemas cruciais e implementa de forma colaborativa soluções para otimizar a promoção e o cuidado integral em saúde, com foco em saúde materno-infantil, saúde bucal e doenças crônicas”, conclui a professora Aylene Bousquat.

Fonte: jornal.usp.br

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