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Mário de Andrade e Losango Cáqui: 100 Anos da Obra Esquecida que Revela os ‘Afetos Militares’ e as Tensões do Modernismo Brasileiro

Há cem anos, a cena literária brasileira recebia “Losango Cáqui”, um novo livro de poemas de Mário de Andrade. Figura central da Semana de Arte Moderna de 1922 e autor de “Pauliceia Desvairada” (1922), Mário já se consolidava como peça-chave na renovação cultural do País. Contudo, “Losango Cáqui” teve uma recepção morna e pontuada de críticas, permanecendo, até hoje, como uma das obras menos discutidas e estudadas do autor.

Um centenário de poesia e controvérsia

O centenário de publicação, com a impressão dos 800 exemplares da primeira edição concluída em 12 de janeiro de 1926, é um convite à retomada da obra. A professora Gênese Andrade, da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), explica que a menor atenção crítica a “Losango Cáqui” pode ser atribuída à sua posição entre os “estrondosos” “Pauliceia Desvairada” e “Macunaíma” (1928), que monopolizaram a fortuna crítica do século 20.

“Losango Cáqui”, cujo subtítulo intrigante é “Afetos Militares de Mistura com os Porquês de Eu Saber Alemão”, reúne poemas escritos majoritariamente em 1922. O cerne do livro explora as experiências militares de Mário, registradas como um diário lírico de um reservista.

Os ‘Afetos Militares’ de um Pacifista

Mário de Andrade teve duas breves passagens pelas Forças Armadas, em 1914 e 1916, motivadas pela Primeira Guerra Mundial. No entanto, ele era um intransigente pacifista. Seu primeiro livro, o pré-modernista “Há Uma Gota de Sangue em Cada Poema” (1917), já clamava pela paz e horrorizava-se com a carnificina europeia.

Em “Losango Cáqui”, suas opiniões não mudaram, mas o foco se deslocou dos conflitos internacionais para suas vivências de treinamento. As páginas revelam os pensamentos do “soldado-raso da República”, um “defensor interino do Brasil” que trocava a pluralidade de cores do arlequim pelo “escravo cáqui” do uniforme militar. Mário descreve o cotidiano cinzento de marchas e oficiais, mas contrapõe a isso a alegria, o amor e os prazeres sensuais. A capa, de Di Cavalcanti, já prenuncia esse contraste: um soldado pensativo com arma e cachimbo. Gênese Andrade sugere que os “afetos militares” podem incluir o “cabo Machado” de um dos poemas e os “porquês de eu saber alemão” se referem a uma professora, Käthe Münch-Blosen, mencionada por Mário em carta a Anita Malfatti.

O Descompasso Temporal e as Críticas Modernistas

Na construção dos poemas, Mário empregou verso livre, linguagem coloquial, tratamento gráfico e associação de ideias, experimentações que refletiam as vanguardas internacionais e um “período de testes” do Modernismo brasileiro entre 1921 e 1923, como aponta o professor Leandro Pasini (Unifesp). O descompasso entre a escrita (1922) e a publicação (1926) foi crucial para sua recepção controversa.

Em 1926, o Modernismo já havia evoluído rapidamente. Oswald de Andrade publicara o “Manifesto da Poesia Pau Brasil” (1924), e Menotti del Picchia iniciava seu rompimento com o grupo, aproximando-se do Movimento Verde-Amarelo. Para os leitores da época, a obra de Mário, com suas experimentações de 1922, parecia “ultrapassada ou incompleta”. Manuel Bandeira, que conheceu os poemas em 1923, os considerou um “treino”. Sérgio Milliet comparou-os ao “bonde para o automóvel”, e Menotti del Picchia foi ainda mais duro, rotulando o livro de “absurdo, injustificado, irritante e pedante”, um “abuso tardio e inoportuno”. Oswald de Andrade, contudo, em carta de Paris, elogiou: “Bom, muito bom, ótimo. Isso é poesia.”

Legado e Novas Perspectivas de Pesquisa

Apesar das polêmicas, “Losango Cáqui” oferece caminhos ricos para pesquisadores contemporâneos. Gênese Andrade destaca as possibilidades comparativas com “Há Uma Gota de Sangue em Cada Poema”, explorando a questão bélica, o nacionalismo e a disciplina. Carlos Drummond de Andrade, em carta de 1926, apesar de pontuar algumas “saudades do parnasianismo”, elogiou “páginas que a inteligência não encomendou e que são apenas a reação duma sensibilidade apuradíssima sobre os fatos banais da vida militar”.

Drummond, aliás, previu a duradoura influência de Mário: “o valor de sua influência no nosso movimento e mesmo na vida intelectual e até moral de nós todos ninguém o poderá avaliar senão daqui a cem anos.” O Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) e a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP conservam manuscritos e exemplares da primeira edição, alguns com dedicatórias do próprio Mário, garantindo que “Losango Cáqui” continue acessível para desvendar as riquezas inumeráveis de seu “imenso coração brasileiro”.

Fonte: jornal.usp.br

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