USP de Ribeirão Preto Revoluciona Cuidado a Mulheres com Câncer de Mama com Projeto de Saúde Bucal e Atendimento Multidisciplinar Integrado

A atenção à saúde bucal desempenha um papel crucial na qualidade de vida de pacientes oncológicas, especialmente entre mulheres em tratamento de câncer de mama. Alterações como boca seca, dificuldade de mastigação, dor, infecções e impactos emocionais são desafios que transcendem a clínica odontológica, exigindo uma abordagem de cuidado integrada e transdisciplinar.

Nesse contexto, a Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto (FORP) da USP desenvolveu um projeto extensionista inovador, que reuniu diferentes áreas da saúde para oferecer um modelo de cuidado abrangente. Coordenada pelo professor Joel Ferreira Santiago Junior, a iniciativa “Saúde Bucal: Um Cuidado Integrado e Transdisciplinar em Favor de Pacientes Submetidos a Tratamentos Oncológicos” foi realizada entre abril e outubro de 2025.

A Necessidade de um Cuidado Abrangente

O projeto atendeu majoritariamente mulheres em tratamento de câncer de mama, acompanhadas por serviços de saúde da USP em Ribeirão Preto e instituições parceiras. Ao longo do período, foram promovidos atendimentos clínicos, ações educativas e oficinas de promoção da saúde, consolidando um modelo que integra ensino, extensão e impacto social.

O professor Joel Ferreira Santiago Junior destaca que o tratamento oncológico impõe desafios que vão além do controle da doença. “Foi necessário elaborar um espaço especializado para que essas pacientes tivessem acesso a um cuidado multidisciplinar, ligado a orientações em saúde bucal. As necessidades dessas mulheres vão muito além da clínica, envolvem autoestima, função mastigatória, nutrição e estética”, afirma o coordenador do projeto.

Formação de Profissionais para o Atendimento Humanizado

Criada em 2025, a ação extensionista visa capacitar estudantes de graduação e pós-graduação da USP para atuarem em atendimentos humanizados, focados na promoção integral da saúde odontológica, orofacial, nutricional e funcional de mulheres mastectomizadas. A iniciativa envolve docentes e alunos das áreas de Odontologia, Fonoaudiologia, Fisioterapia, Nutrição e Enfermagem, provenientes das Faculdades de Odontologia (FORP), Medicina (FMRP) e da Escola de Enfermagem (EERP), fortalecendo a articulação interunidades.

Para a professora Gislaine Aparecida Folha, do Departamento de Ciências da Saúde da FMRP e integrante da equipe, o diferencial reside na visão ampliada do cuidado. “Essa integração entre diversos cursos permite enxergar a paciente como um todo, porque a dor orofacial pode estar ligada a alterações musculoesqueléticas e à dificuldade de alimentação. Quando todas essas áreas dialogam, o cuidado se torna mais eficiente e humano”, enfatiza.

Ensino Aliado à Sensibilidade Clínica

A formação técnica, aliada a um olhar atento às fragilidades emocionais das pacientes, é um dos pilares do projeto. A professora Laura Maria Alencar Ramos Innocentini, do Departamento de Estomatologia da FORP, atua diretamente na preparação dos estudantes. “Na USP, estruturamos a formação para que os estudantes desenvolvam não apenas a competência técnica, mas também a sensibilidade necessária para com esse perfil de paciente. É importante que eles saibam reconhecer precocemente lesões relacionadas aos tratamentos oncológicos, como quimioterapia, radioterapia e terapias-alvo, e saibam, além disso, aplicar protocolos preventivos e terapêuticos”, explica.

Os alunos lidam com quadros clínicos complexos e recorrentes, como mucosite oral (inflamação da boca), xerostomia (secura bucal), disgeusia (alteração do paladar), infecções oportunistas e osteonecrose dos maxilares. “Esses agravos exigem diagnóstico precoce, manejo clínico cuidadoso e acompanhamento interdisciplinar. É essencial que o graduando entenda os contextos de dor pelos quais o paciente passa, a fragilidade, o medo e os impactos psicossociais da doença no tratamento”, ressalta a docente.

Impacto na Formação e na Vida das Pacientes

A experiência extensionista tem sido decisiva na formação acadêmica. Ana Carolina Estevão Figueira, mestranda em Reabilitação Oral da FORP, destaca o aprendizado proporcionado pela atuação direta com pacientes oncológicas. “Tratar esses pacientes tem sido muito enriquecedor para o nosso aprendizado como profissionais, além de também poder proporcionar uma melhor qualidade de vida para esses pacientes oncológicos dentro da odontologia e da reabilitação oral”, relata.

Ela também ressalta a importância da prática clínica na pós-graduação: “Nos programas de pós-graduação, temos pouco contato com a clínica. Esse projeto de extensão é uma das poucas oportunidades que nós, pós-graduandos, temos de poder realmente atuar clinicamente. Além de ser enriquecedor para os pacientes, também está sendo extremamente importante para nossa formação. Espero que o projeto continue para o próximo ano”, observa.

Resultados Concretos e Futuro Promissor

Durante o período de execução, foram realizados 1.098 procedimentos odontológicos, com destaque para a confecção, manutenção e reparo de próteses dentárias, ações diretamente ligadas ao impacto funcional e psicossocial da perda dentária. Além dos atendimentos clínicos, o projeto promoveu três oficinas de promoção da saúde bucal, palestras educativas, produção de materiais informativos, entrega de kits de higiene e atividades de escuta ativa.

A iniciativa contou com a participação de 29 estudantes de graduação e 11 de pós-graduação, beneficiando diretamente 60 pessoas, majoritariamente mulheres em tratamento de câncer de mama. Os retornos das participantes reforçam a importância da proposta. “Elas me relataram que se sentiram cuidadas, ouvidas e respeitadas durante todo o processo de adesão ao tratamento”, afirma o professor Joel Santiago Junior.

Para os próximos anos, a expectativa é de expansão. “A nossa expectativa é poder manter, ampliar e melhorar o número de atendimentos. Queremos consolidar esse modelo e transformar a ação extensionista em referência de cuidado transdisciplinar no contexto oncológico e de saúde bucal”, conclui o coordenador.

Fonte: jornal.usp.br

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *