De Aluno a Coordenador: Como João Buzzo Rompeu Barreiras e Conquistou a USP via Cursinho Popular, Inspirando Jovens de São Carlos

Quando estava no primeiro ano do ensino médio em Campinas, João Buzzo não imaginava o que era uma universidade pública. Doze anos depois, ele está na mesma sala de aula (3-011 do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação – ICMC da USP em São Carlos) onde sua jornada de descoberta começou em 2016. Naquela época, João era um aluno acolhido pelo Projeto Aprender, um cursinho popular. Hoje, ele não só veste a camisa da iniciativa, mas é um de seus coordenadores, um papel que nunca sonhou ocupar.

O Projeto Aprender existe para quebrar as barreiras que impedem muitos jovens de imaginar um futuro em uma universidade pública. A iniciativa, que está com inscrições abertas até 15 de fevereiro, busca desmistificar o acesso ao ensino superior. “Nosso objetivo é desmistificar o que é uma universidade pública. Mostrar para quem estuda no ensino médio, em uma escola estadual, que é um direito estar aqui dentro e utilizar esses recursos. Esse é o nosso lugar também”, afirma João Buzzo.

O Ponto de Partida: O Projeto Aprender

A mudança de Campinas para São Carlos no segundo ano do ensino médio foi um divisor de águas para João. Na Escola Estadual Sebastião de Oliveira Rocha, ele ouviu os professores falarem sobre as universidades públicas, o que abriu “a primeira porta para que eu procurasse um cursinho popular.” Sem condições financeiras para um cursinho pago, João encontrou no Projeto Aprender a alternativa ideal. Ele destaca que as aulas noturnas do cursinho são pensadas para alunos que, como ele, estudam em período integral, trabalham ou já concluíram o ensino médio.

“Naquele momento, em 2016, eu comecei a entender o que era uma universidade pública. E foi nessa sala, 3-011, do ICMC, que eu tive as minhas primeiras aulas, aqui que eu conheci os primeiros professores do Projeto Aprender, muitos deles, amigos que eu carrego até hoje”, relembra. No final daquele ano, João conquistou sua primeira vaga na USP, no Bacharelado em Física em São Carlos, iniciando uma nova fase de descobertas.

A Descoberta da USP e os Desafios da Física

O início da graduação em Física foi desafiador. João aponta a grande defasagem que alunos da rede pública frequentemente carregam, exigindo um período de adaptação maior e resultando em reprovações iniciais. “A gente precisa de um período de adaptação muito maior. Então, acaba acontecendo de ter muitas reprovações no primeiro ano, até que a gente aprenda a estudar de verdade, até que a gente consiga buscar o conteúdo que faltou”, explica.

Apesar das dificuldades, João persistiu, engajando-se em projetos de iniciação científica e cursando disciplinas optativas em física computacional, uma área que o atraía mais. Contudo, percebeu que gostava mais da computação do que da física em si. Sentindo uma pressão para saber o que queria desde o ensino médio, João levou quatro anos para decidir mudar de curso.

A Virada para a Computação e um Novo Começo

No final de 2020, uma tentativa de transferência para Ciências da Computação não foi bem-sucedida. Em 2021, João tomou a difícil decisão de abandonar a Física e se dedicar novamente aos estudos para o vestibular. O esforço valeu a pena: no início de 2022, ele conquistou, pela segunda vez, uma vaga na USP, desta vez no curso de Ciências de Computação do ICMC. “Encontrei uma atmosfera diferente na Computação, eu me vi em um curso aprendendo coisas que eu gostava mais e fui me desenvolvendo em meio a todas as atividades, quebrando barreiras que eu mesmo havia me imposto na época da física”, compartilha.

O Retorno ao Aprender como Professor e Coordenador

Ao ingressar no ICMC, João decidiu enfrentar a ansiedade social. Passou a se socializar mais, a integrar grupos de extensão e, em 2024, aceitou o desafio de ser monitor de física no Projeto Aprender. “Estar em situações sociais com muitas pessoas que eu não conhecia era muito difícil. Enquanto monitor, eu estive em salas pequeníssimas, dez alunos no máximo, mas eu já tinha um nervosismo muito grande”, relata.

O desafio cresceu quando ele foi promovido a professor de física. O nervosismo persistiu, mas João aprendeu com seus “percalços dentro da Universidade” que “errar faz parte”. Hoje, ele não hesita em buscar respostas ou admitir que precisa pesquisar. De volta ao Aprender, agora como professor, João se considera também um aprendiz. “É gratificante demais. Eu gosto de repetir isso no começo de todo o ano: no fim das contas, eu e os outros voluntários ― coordenadores, professores, monitores ― também somos alunos dos nossos alunos. A gente está aprendendo com eles como a gente pode melhorar enquanto professor e como podemos ajudá-los melhor”, afirma.

Desde o início de 2025, João passou a integrar a coordenação do Projeto Aprender. No começo de 2026, ele voltou a morar em Campinas, onde atualmente trabalha como analista de Operações de Sistemas Júnior na gigante chinesa de tecnologia Build Your Dreams (BYD), marcando mais um passo em sua contínua jornada de descobertas e superação.

Fonte: jornal.usp.br

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