Bixiga Revelado: Exposições na USP Desvendam Histórias Ocultas do Patrimônio Negro e Italiano no Coração de São Paulo

O bairro do Bixiga, em São Paulo, é amplamente conhecido por sua forte herança italiana, mas esconde também um rico e fundamental “pedaço da África”. Para lançar luz sobre essa pluralidade cultural, o Centro de Preservação Cultural Casa de Dona Yayá (CPC) da USP, em parceria com o movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai, apresenta duas exposições que se complementam e revelam as múltiplas camadas da história local.

As mostras, que estão em cartaz na sede do CPC com entrada gratuita, oferecem ao público uma imersão no cotidiano e na memória do Bixiga. “O patrimônio não é apenas uma coisa bela e antiga. É o cotidiano das pessoas”, afirma a professora Flávia Brito, diretora do CPC e docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU) da USP, destacando a relevância de se abordar a cultura de forma viva e acessível.

A Pluralidade de Olhares sobre o Bixiga

A exposição Imagens em Patrimônio: Bixiga exibe as fotografias vencedoras de um concurso promovido pelo CPC em 2024, capturando a diversidade de perspectivas sobre o bairro. Entre as 15 imagens, destaca-se a de Mariana Alves Teixeira, que retrata a icônica Festa da Achiropita, com seus ornamentos aéreos suspensos sobre a rua, em meio aos cabos elétricos.

Outra fotografia marcante, de autoria de Pedro Lopes, estudante de Arquitetura da USP e vencedor na categoria Formas de Expressão, faz referência aos cultos religiosos de matriz africana, presentes na Grota do Bixiga. A imagem, capturada onde se concentram as nascentes do córrego Saracura, mostra um grafite da planta espada-de-são-jorge ao lado do nome do orixá Ogum, em um momento de conexão singular com a natureza e a espiritualidade.

Cenas do cotidiano do bairro também são registradas, como em uma foto de Carla Lombardo, que exibe a frase “Aqui passa o Saracura” em uma rua, ladeada por elementos de trabalhos espirituais. Outras imagens de Antonio Celso Campos de Almeida revelam a vida pulsante do Bixiga, com suas casas peculiares, figuras humanas em interação e a riqueza de grafites e símbolos religiosos que permeiam o cenário urbano.

Desvendando o Quilombo do Saracura: Legado e Vivência

O passado negro do Bixiga é o foco principal da exposição Quilombo do Saracura Vai-Vai: Legado, Vivência e ReXistência. Em cinco painéis, a mostra traça a história do Quilombo do Saracura, que se desenvolveu às margens do córrego de mesmo nome a partir do século 17. Este riacho, hoje canalizado e oculto pela urbanização, foi lar de comunidades quilombolas, conforme registrado em documentos históricos como a Ata da Câmara de São Paulo de 1831.

A importância desse legado foi reforçada em 2022, com a descoberta do Sítio Arqueológico Saracura/14 Bis durante as escavações para a Linha 6-Laranja do metrô. Mais de 90 mil peças, datadas dos séculos 19 e 20, foram encontradas, incluindo conchas, cachimbos e bonecos de arame associados a divindades. Solange Sant’Ana, do Mobiliza Saracura Vai-Vai, enfatiza que “os objetos achados se relacionam com o uso doméstico, como sapatos e ferramentas, e religioso”, ressaltando a necessidade de aprofundar as pesquisas para interpretar esses achados em seu devido contexto histórico. A exposição inclui fotos e réplicas de alguns desses itens, analisados por um comitê religioso formado pelo movimento.

A Luta por Memória e Permanência Negra no Bixiga

A jornalista Adriana Terra, doutoranda na EACH/USP e integrante do Mobiliza Saracura Vai-Vai, destaca que, apesar da recente descoberta do sítio, a comunidade do Bixiga já pressentia seu passado quilombola. “A escola de samba do Vai-Vai, que ficava no local da construção do metrô antes de ser demolida em 2021, sempre anunciou que ali era um quilombo”, ela afirma. A mostra detalha a origem do Vai-Vai, um dos primeiros cordões de samba de São Paulo, que surgiu das festas do time Cai-Cai e se tornou um pilar social do bairro, realizando trabalhos comunitários e unindo a população em torno de sua quadra. Um vídeo com depoimentos de membros da velha guarda do Vai-Vai enriquece a exposição, contando suas histórias e reforçando a identidade cultural do Bixiga.

O movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai luta pela permanência negra no bairro e reivindica a apresentação consciente dos itens encontrados, sob o lema: “Por memória e permanência: metrô sim, mas sem apagamento”. Adriana Terra enfatiza que a exposição no CPC é parte dessa estratégia de “pressão política, mobilização popular e também educação patrimonial”, visando a um diálogo essencial entre a universidade pública e a comunidade local.

A Casa de Dona Yayá: Um Cenário de História e Cultura

As exposições são abrigadas no Centro de Preservação Cultural Casa de Dona Yayá, um edifício com uma história singular. Construído no século 19, o chalé se tornou, a partir de 1920, o sanatório particular de Sebastiana de Mello Freire (1887-1961), conhecida como Dona Yayá. Herdeira de grande fortuna, Sebastiana foi reclusa na casa por mais de 30 anos devido a comportamentos considerados estranhos na época. Após sua morte, em 1961, seus bens foram transferidos à USP, e hoje a casa sedia o CPC, um centro ativo que promove ioga, oficinas, seminários e cursos, além de ser responsável pela preservação dos bens culturais da Universidade de São Paulo.

As exposições Imagens em Patrimônio: Bixiga e Quilombo do Saracura Vai-Vai: Legado, Vivência e ReXistência permanecem em cartaz por tempo indeterminado no Centro de Preservação Cultural Casa de Dona Yayá (CPC) da USP, localizado na Rua Major Diogo, 353, Bixiga (Bela Vista), em São Paulo. A visitação é gratuita, de segunda a sexta-feira, das 10h às 18h (às quartas-feiras, até as 20h), e aos domingos, das 10h às 13h. Não é necessário agendamento.

Fonte: jornal.usp.br

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