Um estudo promissor conduzido pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, em São Paulo, está em fase de recrutamento para avaliar a eficácia do antibiótico Doxiciclina como profilaxia pós-exposição (PEP) na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) bacterianas. A pesquisa, denominada DoxiPEP-SP, tem como objetivo principal fornecer dados robustos ao Ministério da Saúde para uma possível implementação do fármaco no combate a doenças como sífilis, gonorreia e clamídia no Brasil.
De acordo com o professor Ricardo Vasconcelos, pesquisador principal de estudos de prevenção de HIV e outras ISTs no Centro de Pesquisas Clínicas do HC, a Doxiciclina pode se tornar uma ferramenta crucial para as políticas públicas de saúde. “A Doxiciclina será um importante medicamento para as políticas públicas de combate a infecções sexualmente transmissíveis”, afirma Vasconcelos.
A Ascensão das ISTs Bacterianas e a Busca por Soluções
Enquanto a profilaxia pré-exposição (PrEP) e a pós-exposição (PEP) para o HIV, disponíveis gratuitamente pelo SUS desde 2018, têm mostrado um cenário otimista de queda nos novos casos de infecção por HIV em São Paulo, o panorama das ISTs bacterianas é preocupante. “Quando você olha para as ISTs bacterianas e, principalmente, aqui no Brasil, para a sífilis, que também é transmitida de maneira sexual ou vertical, os casos não estão caindo como gostaríamos. Ao contrário, nos últimos dez anos, no Brasil, os casos de sífilis explodiram”, explica o professor. Esse aumento não é exclusivo do Brasil, sendo observado em diversas partes do mundo, o que impulsionou a busca por novas estratégias de prevenção, inspiradas no sucesso das profilaxias contra o HIV.
Doxiciclina: Eficácia Comprovada e Perspectivas para o Brasil
A ideia de usar um antibiótico como prevenção inicialmente levantou questionamentos sobre o potencial aumento da resistência bacteriana. No entanto, estudos internacionais têm refutado essa preocupação. Em 2018, pesquisadores franceses testaram a DoxiPEP, que consiste na tomada pontual de dois comprimidos de Doxiciclina em dose única, idealmente nas primeiras 24 horas após uma relação de risco e não excedendo 72 horas. “O que eles mostraram, tanto nesse estudo quanto em outros três que foram feitos nos Estados Unidos e no Quênia, foi que quem toma o comprimido de maneira correta consegue ter uma redução na incidência brutal, tanto da sífilis quanto da clamídia, e uma redução da incidência um pouco menor da gonorreia, sem afetar a resistência bacteriana”, detalha Vasconcelos.
Com base nesses resultados promissores, o Brasil planeja introduzir o uso da Doxiciclina como profilaxia no segundo semestre de 2026. O estudo DoxiPEP-SP é fundamental para adaptar e validar esses achados à realidade brasileira, fornecendo dados cruciais para o Ministério da Saúde.
Como Participar do Estudo DoxiPEP-SP da USP
Atualmente, o DoxiPEP-SP está em plena fase de recrutamento e busca indivíduos que tenham contraído alguma IST bacteriana no último ano. Os participantes serão acompanhados por um período de 24 meses, com visitas trimestrais, durante as quais receberão os comprimidos de DoxiPEP, farão exames de ISTs e avaliações da flora bacteriana. “É um desenho muito simples e a gente tem uma expectativa de que isso vai ter muito sucesso, porque acreditamos que, aqui no Brasil, também vai funcionar e, no futuro, fazer a curva de incidência de sífilis, que só cresce, começar a descer”, projeta o pesquisador.
Pessoas interessadas em saber mais e se inscrever no estudo podem procurar o perfil do Programa de Educação Comunitária no Instagram, @pecnasredes. O perfil contém um questionário de inscrição e mais informações sobre a pesquisa, além da possibilidade de enviar mensagens para tirar dúvidas. “Pessoas interessadas eu recomendo que entrem logo em contato, porque a procura está gigantesca, o que mostra a importância do tema”, alerta Vasconcelos.
Um Futuro com Menos ISTs: A Expectativa do DoxiPEP-SP
O médico ressalta a importância de não estigmatizar as ISTs. “É importante não estigmatizar o assunto, porque sífilis, clamídia, gonorreia e ISTs bacterianas não acontecem apenas com um grupo específico”, afirma. Embora alguns subgrupos populacionais, como jovens, homens gays, bissexuais e mulheres trans, sejam mais afetados, qualquer pessoa com vida sexual ativa é considerada vulnerável. O foco do recrutamento, por exemplo, inclui homens gays e mulheres cisgênero trabalhadoras do sexo, mas a vulnerabilidade se estende a todos. A expectativa é que o DoxiPEP-SP represente um avanço significativo na saúde pública brasileira, contribuindo para reverter a crescente incidência de ISTs bacterianas.
Fonte: jornal.usp.br
