Sacrifício de Dingos em K’gari Gera Polêmica Após Morte de Turista: Governo Ignora Povos Aborígenes e Ecologia
O governo de Queensland, na Austrália, anunciou o sacrifício de uma matilha de dez dingos na ilha de K’gari (anteriormente Ilha Fraser) após a descoberta do corpo de uma turista canadense, Piper James, de 19 anos. A jovem foi encontrada com marcas de mordidas, embora a autópsia preliminar sugira que a causa mais provável da morte foi afogamento, com as mordidas ocorrendo majoritariamente após o óbito. A decisão tem gerado fortes críticas de especialistas e comunidades locais, que a consideram “irracional” e “desrespeitosa”.
K’gari: Um Santuário Ameaçado e Sagrado
K’gari, a maior ilha de areia do mundo e um parque nacional de conservação, é o lar de aproximadamente 200 dingos, que os povos aborígenes Butchulla, co-gestores da ilha há mais de 5 mil anos, consideram sagrados, chamando-os de ‘wongari’. Os dingos de K’gari possuem distinção genética e, com uma população pequena e endogamia significativa, enfrentam risco de extinção. A eliminação de uma matilha inteira pode ter um impacto duradouro e severo em sua sobrevivência.
Turismo Massivo x Conservação e Cultura Local
A ilha atrai entre 800 mil e 1 milhão de turistas anualmente, um fluxo massivo que, segundo especialistas, contribui para a alteração do comportamento dos dingos. Apesar de raros, os ataques a turistas, incluindo o trágico caso do menino Clinton Gage em 2001, levaram a abates regulares de dingos desde então. No entanto, a eficácia dessas medidas na melhoria da segurança é questionada, enquanto outras estratégias como sinalização, grades e campanhas de conscientização têm sido implementadas. A alimentação proposital ou acidental dos animais por parte dos turistas agrava o problema, associando a presença humana à obtenção de alimento.
Decisão Governamental Ignora Vozes Indígenas e Científicas
A decisão de sacrificar os dez dingos foi tomada sem consulta aos povos Butchulla, que expressaram surpresa e desapontamento. A Corporação Aborígene Butchulla lamentou que “prioridades econômicas estão sendo colocadas acima das vozes de pessoas e proprietários tradicionais”. A situação se agrava com a recente decisão do ministro do Meio Ambiente e Turismo de Queensland, Andrew Powell, de não limitar a circulação de turistas na ilha, uma medida que havia sido proposta anteriormente para mitigar os impactos ambientais e culturais. O ministro, no entanto, assegurou que a ilha permanece aberta e encorajou as visitas, priorizando o turismo em detrimento das preocupações com a ecologia e a cultura local.
Fonte: super.abril.com.br


