Cidades ao redor do mundo estão negligenciando a adoção de soluções baseadas na natureza (SBNs), uma estratégia vital que poderia significativamente fortalecer sua resiliência climática. Essa constatação, levantada por especialistas globais, ressalta a urgência de integrar a natureza no planejamento urbano, especialmente através da infraestrutura verde e azul. A professora Amarilis Lucia Casteli, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), e supervisora no Centro de Síntese Cidades Globais do Instituto de Pesquisas Avançadas da USP, destaca a importância desse conceito, que também foi tema de um renomado artigo, o CCD USP Cidades, do qual participou.
O Conceito de Infraestrutura Verde e Azul
“A infraestrutura verde e azul é um termo utilizado no planejamento de gestão urbana que representa os elementos verdes – parques, gramados, árvores, florestas urbanas – e os elementos azuis, como rios, lagos e córregos”, explica Amarilis Casteli. Ela contrasta essa abordagem com a infraestrutura cinza, composta por edificações, ruas e pontes, que, com o avanço da urbanização, frequentemente substitui o ambiente natural. Em um cenário de mudanças climáticas aceleradas, a infraestrutura verde e azul ganha destaque como uma estratégia essencial para proteger essas áreas e desenvolver soluções que mitiguem problemas urbanos como inundações, secas, ilhas de calor, degradação da qualidade do ar e perda de biodiversidade.
Barreiras e Desafios da Implementação
Apesar dos benefícios evidentes, a implementação dessas técnicas enfrenta desafios significativos. Roberta Kronka, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e coautora do artigo, aponta que os fatores críticos podem ser agrupados em quatro categorias interconectadas: barreiras relacionadas à governança (políticas públicas), ambientais, econômicas e sociais. “Alguns exemplos são: escassez de terra e expansão urbana, a fragmentação dos estudos em frente à estrutura verde e azul, o financiamento para a implementação dessa tecnologia e a injustiça social”, detalha Kronka.
Outro obstáculo notável, especialmente no contexto nacional, é o planejamento urbano historicamente orientado ao automóvel. Essa priorização dificulta a criação de cidades mais caminháveis e a integração de soluções baseadas na natureza. No entanto, Kronka observa que a crescente conscientização sobre as mudanças climáticas oferece uma oportunidade para integrar a infraestrutura verde e azul, melhorando simultaneamente os centros urbanos. Ela cita Barcelona como um exemplo de cidade que tem adotado “soluções maravilhosas” em resposta a essa crise.
Tipos e Exemplos de Soluções Baseadas na Natureza (SBNs)
Amarilis Casteli categoriza as SBNs, as estratégias urbanas de resiliência climática, em três tipos principais:
- Tipo 1: Foca no melhor uso de ecossistemas naturais protegidos, como a criação de novas unidades de conservação em áreas urbanas, periurbanas e de preservação permanente.
- Tipo 2: Trata da recuperação de ecossistemas degradados, restaurando paisagens, áreas verdes urbanas e recuperando rios e córregos.
- Tipo 3: Refere-se à criação de novos ecossistemas e projetos inovadores, incluindo corredores verdes, parques, sistemas de drenagem sustentáveis e telhados verdes.
A cidade de São Paulo, por exemplo, já implementa um programa de jardins de chuva, visando mitigar os problemas de inundações urbanas, um claro exemplo do Tipo 3 de SBN.
O Caminho para um Futuro Mais Resiliente
Para que as soluções baseadas na natureza saiam do papel e se tornem uma realidade transformadora, é crucial um esforço conjunto. “A Universidade tem desempenhado um papel importante nesse contexto, mas é preciso também engajar empresas, a sociedade, e divulgar mais o tema em sua perspectiva técnica, em suas multifacetas, suas diferentes visões”, afirma Amarilis Casteli. Ela enfatiza a necessidade de demonstrar ao público que essas são soluções eficientes, capazes de melhorar a qualidade de vida e enfrentar os graves problemas urbanos.
Roberta Kronka complementa, destacando o grande potencial de modificação na herança das cidades voltadas para os automóveis. Ela aponta para “questões muito importantes já acontecendo efetivamente e que incorporam a finança adaptativa e incentivos à política pública”, vislumbrando caminhos para um futuro urbano mais sustentável e resiliente.
Fonte: jornal.usp.br


