Cidade Invisível da Netflix: Análise da USP Revela Adaptação Decolonial de Mitos Brasileiros e os Limites da Representação Audiovisual
Pesquisador da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP examina como a série moderniza figuras do folclore como Saci e Curupira, mas aponta desafios na superação de traumas coloniais.
Lançada em 2021, a série ‘Cidade Invisível’ da Netflix conquistou o público ao apresentar uma releitura contemporânea dos mitos do folclore brasileiro. A produção, que acompanha um policial ambiental confrontado com a existência de entidades folclóricas que coexistem no ambiente urbano, alcançou grande sucesso, figurando entre as mais vistas no Brasil e em diversos países.
Com o intuito de aprofundar a discussão sobre a adaptação audiovisual desses mitos sob uma perspectiva decolonial, o pesquisador Claudinei Lopes Junior, doutorando em Ciências da Comunicação na ECA/USP, desenvolveu o estudo que deu origem ao artigo “Folclore brasileiro na tela do streaming: uma análise crítica sob o olhar decolonial de Cidade Invisível”. O trabalho, publicado na revista Novos Olhares, ligada ao Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais (PPGMPA) da ECA, realiza uma análise qualitativa e exploratória de sequências dramáticas para compreender a incorporação dos mitos no audiovisual.
A Releitura Contemporânea do Folclore Brasileiro
Para Claudinei, folclore pode ser entendido como a expressão de sentimentos de um povo através de símbolos — artísticos, religiosos ou comportamentais — que são coletivamente consagrados e adaptados para garantir sua sobrevivência. A série ‘Cidade Invisível’ explora essa premissa ao apresentar personagens que representam mitos tradicionais.
O Curupira, por exemplo, é introduzido em um flashback, agindo para proteger o meio ambiente e atacando apenas quem destrói as florestas, conforme o relato do personagem Ciço. Essa representação ecoa as descrições históricas do Curupira, presente em cartas portuguesas de 1560, que o descreviam como infixo, multiforme, veloz, e protetor das matas, com pés para trás e cabeleira de fogo. Todas essas características são exploradas já nas primeiras cenas do personagem na série.
A representação do Saci, personificado por Isac (Wesley Guimarães), também abrange as características tradicionais, mas com decisões disruptivas. Isac é um jovem negro que vive em uma ocupação na Lapa, Rio de Janeiro. Ele possui duas pernas, sendo uma delas uma prótese, e substitui o gorro vermelho por uma bandana mágica. A série, inclusive, brinca com os “estereótipos” da lenda quando uma criança duvida de sua aparência, ao que Isac responde que ela “está assistindo muito desenho animado”. A escolha de locais de gravação, como ruas estreitas com arquitetura colonial e áreas de preservação ambiental próximas de Ubatuba, complementa a atmosfera de mistério e ancestralidade, reforçando a temática da relação entre seres míticos e natureza.
Decolonialidade em Debate: A Série como Ruptura
Claudinei Lopes Junior argumenta que ‘Cidade Invisível’ “rompe com o sistema de pensamento colonial que impõe valores ocidentais universais e muitas vezes silencia as tradições locais”. Ao projetar figuras folclóricas de maneira contemporânea e global, a série pode ser vista como um exemplo de “cultura renovada”, buscando iluminar tradições culturais brasileiras que foram excluídas e propondo “novas formas simbióticas de existência de culturas locais no âmbito global”. Essa abordagem desafia a hegemonia colonial, dando visibilidade a narrativas e símbolos que historicamente foram marginalizados.
Os Limites da Visão Decolonial na Tela
Apesar de seu sucesso em modernizar personagens tradicionais, o pesquisador aponta que a obra ainda falha em tornar essas representações um reflexo mais profundo da cultura brasileira do que da cultura colonial. Claudinei ressalta a importância de produções audiovisuais lidarem com os traumas coloniais, que ainda persistem como feridas abertas no imaginário social brasileiro.
“Nosso imaginário social é um retrato do tempo. Contudo, no cenário brasileiro, o que não se vem alterando são as imagens que compõem esse imaginário social. Na verdade, estamos diante apenas de remodelações daquilo que conhecemos por colonialidade, que busca enraizar cada vez mais forte a diferença colonial, inclusive, por processos como a modernidade”, explica Claudinei Lopes Junior.
O doutorando sugere que, em uma obra que aborda o folclore, haveria espaço para mais gravações fora do eixo Rio-São Paulo e para representações mais fiéis às histórias populares, como a inclusão de mais personagens interpretados por pessoas indígenas. Contudo, ele também reconhece que a quebra dessas expectativas e a projeção de escolhas mais disruptivas podem romper com uma visão “calcada na colonialidade”, que tende a prever “sempre pares de opostos, como: dominante/dominado, verdadeiro/falso, entre outros”.
Entre a Sensibilidade Local e a Estratégia Global
Claudinei Lopes Junior conclui que as adaptações de conteúdos tipicamente populares por grandes plataformas como a Netflix integram uma “estratégia de transnacionalização de obras originais”. Nesse contexto, espera-se que as produções expressem sensibilidades locais ao mesmo tempo em que apelam a questões que transcendem o nacional, muitas vezes em prol do lucro. Essa complexidade adiciona uma camada importante à análise da obra, que precisa equilibrar a valorização cultural com as demandas do mercado global.
Fonte: jornal.usp.br


