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"title": "Por que a Reação à Não Binariedade Revela Mais Sobre Poder que Identidade? Pesquisa da USP Desvenda Desigualdades de Gênero no Trabalho",
"subtitle": "Tese pioneira em Administração da USP, defendida pela Dra. Akira Aikyo Galvão, propõe analisar a não binariedade como ferramenta para expor como a norma binária sustenta hierarquias e afeta a todos no mercado de trabalho.",
"content_html": "<p>A não binariedade, frequentemente vista como uma categoria de identidade, é na verdade uma lente poderosa para analisar as relações de poder que moldam a sociedade e o mercado de trabalho. Essa é a premissa central da tese de doutorado de Akira Aikyo Galvão, defendida no Programa de Pós-Graduação em Administração (PPGA) da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP.</p><p>Akira Aikyo Galvão, a primeira pessoa trans a se doutorar pela FEA em 80 anos e a primeira pessoa trans não binária doutora em Administração no Brasil, propõe um deslocamento conceitual: a não binariedade passa de identidade para categoria de análise. Seu trabalho questiona a naturalização da dicotomia “homem” e “mulher”, “masculino” e “feminino”, revelando como essa estrutura impulsiona desigualdades não apenas para a minoria não binária — que representa cerca de 2,4 milhões de brasileiros e enfrenta uma taxa de desemprego três vezes maior que a de pessoas cisgêneras — mas para toda a sociedade.</p><h3>A Não Binariedade como Lente Analítica para o Poder</h3><p>Para a pesquisadora, o mercado de trabalho funciona como um "laboratório ao vivo" para observar as estruturas de poder. Utilizando o conceito de “dispositivo” de Michel Foucault, Akira investiga como as figuras masculinas permanecem no centro do poder em diferentes esferas, enquanto pessoas distantes da identidade hegemônica do homem branco cisgênero enfrentam descrédito e desprestígio. A diferença salarial e a sub-representação feminina em cargos de decisão são exemplos claros. A tese de Akira adiciona uma camada de complexidade, mostrando como a não binariedade perturba a naturalização dessas hierarquias de gênero, que associam liderança a um gênero específico, como se fosse um atributo inato, e não uma construção histórica.</p><h3>Dicotomia de Gênero: Uma Construção Histórica e Colonial</h3><p>Akira Galvão desafia a percepção de que a não binariedade é um fenômeno recente ou restrito às gerações mais jovens. Ela argumenta que a própria dicotomia masculino-feminino é uma construção histórica e eurocêntrica, imposta aos povos não ocidentais durante o processo de colonização. Antes da catequização católica, muitos povos originários do Brasil e das Américas não utilizavam essa classificação binária. A pesquisadora menciona Xica Manicongo, a primeira travesti não indígena do Brasil no século 16, como um exemplo de como a normalidade binária foi perturbada historicamente.</p><h3>Violência e a Proposta do “Insurgênero”</h3><p>A provocação que as pessoas não binárias fazem às normas sociais herdadas da colonização gera reações intensas, que vão de grupos conservadores a femininas trans-excludentes e parte da comunidade LGB. Essa hostilidade se manifesta em um cenário alarmante de escalada da violência contra pessoas LGBTQIAPN+ no Brasil, com um aumento de 35% nos casos contra homossexuais e bissexuais e 43% contra pessoas trans e travestis de 2022 para 2023.</p><p>Em resposta a essa violência, Akira propõe o conceito de “insurgênero”. Baseado em diversas áreas do conhecimento, o insurgênero não visa menosprezar a identidade de homens e mulheres, mas sim desestabilizar as relações de poder ligadas à organização social. Ele questiona a produção de conhecimento a partir de categorias binárias, agindo como uma provocação contra a artificialidade do poder que sustenta essa ideia. “Quando eu questiono a binariedade, estou questionando justamente a artificialidade do poder que sustenta essa ideia”, conclui Akira.</p><h3>Disciplina e Reflexão sobre Gênero e Poder na USP</h3><p>O debate trazido por Akira estará presente em sala de aula na FEA-USP. Neste semestre, ela será uma das ministrantes da disciplina “Interseccionalidades em Organizações Diversas”, ao lado das professoras Silvia Casa Nova e Antônia Quintão. A disciplina, que terá sua segunda edição e será oferecida para graduação e pós-graduação em formato híbrido, também resultará no lançamento de um e-book. As inscrições para alunos especiais ocorrem de 2 a 4 de fevereiro pelo site do PPGA, sendo necessária a apresentação de carta de intenções, diploma, histórico escolar e currículo. Estudantes regulares da USP e de graduação também terão formas de inscrição.</p>"
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Fonte: jornal.usp.br


